Jornal Médico Grande Público

Filipa Faria: tecnologias e reabilitação na lesão medular
DATA
15/12/2015 11:08:27
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS

Filipa Faria: tecnologias e reabilitação na lesão medular

[caption id="attachment_17035" align="alignnone" width="300"]Filipa Faria Filipa Faria - Assistente H. Graduada de Medicina Física e de Reabilitação - Diretora do Serviço de Reabilitação de Adultos 1 do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão[/caption]

A Medicina Física e de Reabilitação tem na lesão medular (LM) um dos desafios mais complexos e simultaneamente mais compensadores. Com efeito, esta é uma das patologias em que a nossa atuação é decisiva não só para a sobrevivência, mas para a qualidade de vida e participação social do indivíduo. Sem dúvida que o desenvolvimento tecnológico tem ampliado a nossa intervenção, permitindo que pessoas com graves limitações possam ter uma vida ativa e uma participação mais efetiva na sociedade, resultando numa maior satisfação pessoal e enriquecimento para as suas vidas e para a comunidade em que se inserem.

A reabilitação cumpre assim a sua missão dereduzir o impacto da condição incapacitante permitindo ao indivíduo a obtenção de uma completa integração”(in Livro Branco de Medicina Física e de Reabilitação na Europa).

A tecnologia em reabilitação pode ser encarada sobre três vertentes: de diagnóstico, de intervenção terapêutica e facilitadora da inclusão social. Neste último caso, é habitualmente designada por produto de apoio (PA) e tem vindo a ser decisiva neste processo de inclusão social aofacilitar, promover e criar condições para a participação na sociedade. Deste modo, os PA permitem o acesso à educação, ao trabalho e ao lazer, a possibilidade de escolha em igualdade de circunstâncias com os outros, ou seja, o controlo sobre as suas vidas.

Contudo, para que o PA seja utilizado em pleno há que atender a alguns fatores aquando da sua prescrição:

  • adequação à incapacidade do indivíduo, através de uma avaliação clínica e funcional efetuada pelo Fisiatra, coadjuvado quando necessário por técnico, de forma a identificar as necessidades do indivíduo;
  • expectativas do utilizador, o que a pessoa espera vir a ganhar com esse produto de apoio, que autonomia espera obter nos diferentes ambientes em que se encontra;
  • avaliação dos ambientes em que esse produto vai ser utilizado, sendo por vez importante realizar uma avaliação in loco (no domicílio, no local de trabalho ou escola) para aferir as condições físicas existentes;
  • identificação da necessidade de treino para utilização do PA do próprio utilizador ou, se ele necessitar de ajuda para colocar ou utilizar o PA, não esquecer o treino do cuidador;
  • independentemente do custo e de quem paga, devemos assegurarmo-nos que o PA vai ser efetivamente utilizado. Para isso é fundamental que o utilizador seja chamado a participar no processo de decisão.

Como tem sido manifestado pelas pessoas com deficiência e seus representantes ao longo de décadas e sublinhado na Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada por Portugal em 2009, é importante garantir a igualdade para o exercício dos direitos e responsabilidades de todos os cidadãos, independentemente da sua condição de saúde, muitas vezes só possível recorrendo a PA.

Colocam-se alguns desafios para o futuro: as novas tecnologias prometem aumentar as capacidades das pessoas com LM; mas será que o acesso não será limitado por questões económicas? Como financiar a atribuição dos PA? Como garantir a equidade a não discriminação e o exercício do direito ao acesso? Por outro lado, cada vez mais as pessoas com deficiência exigem participar desde a fase de desenvolvimento do produto, design e processo fabrico; como incluir os utilizadores ao longo deste processo? Como aproximar os investigadores e engenheiros dos clínicos e dos utilizadores? Em jeito de reflexão, deixo-vos uma frase de Mary Pat Radabaugh que sintetiza a importância da tecnologia: “Para as pessoas sem deficiência, a tecnologia torna as coisas mais fáceis; para as pessoas com deficiência, a tecnologia torna as coisas possíveis”.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas

Has no content to show!