Rui Cernadas: uma espécie de alerta…
DATA
30/12/2015 12:00:49
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Jornal Médico
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Rui Cernadas: uma espécie de alerta…

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Nem sempre tudo o que parece é… Como também nem sempre tudo o que é parece, diz o povo na sua infinita sabedoria. Vem o adágio a propósito da prescrição médica e do facto de poder não existir uma relação linear entre a despesa com medicamentos comprados nas farmácias e uma prática clínica de qualidade.

Vivemos numa sociedade em que as pessoas tendem a pretender – talvez de forma exagerada – medicação para as suas queixas e sintomas, tendência que frequentemente resulta em reclamações contra decisões médicas de não instituição de terapêutica farmacológica. Ora, a verdade é que é ao clínico que compete ajuizar da necessidade do medicamento ou da mais-valia que a sua prescrição pode representar para uma dada situação concreta.

Os dados mais recentes mostram que Portugal foi o país da OCDE que registou a maior diminuição da despesa com medicamentos adquiridos nas farmácias entre 2009 e 2013… E que a redução – na ordem dos 11% – na componente de despesa pública, foi largamente superior à da média dos vinte e oito países que integram aquela organização internacional.

Ou seja, o sentido ou a tendência de quebra foi generalizado, tendo sido mais marcada em alguns países, como a Dinamarca, a Islândia ou a Grécia. Esta média, em concreto, e em 2013, compara os 358 euros por cidadão português com os 471 euros em termos médios per capita da OCDE…

A queda na despesa com medicamentos registada em Portugal foi acompanhada, desde 2010, por uma diminuição consistente do consumo de antibióticos. Um dado relevante, já que Portugal, nesta área, apresentava um consumo médio muito elevado, o que como se sabe, não traduz uma boa prática, obrigando a um esforço suplementar no controlo da infeção e da resistência aos antibióticos, que se deverá manter na agenda e na linha das preocupações da chamada governação clínica, em especial no plano hospitalar, mas também nos cuidados primários. Nesta linha, sublinha-se o recente alerta da Sociedade Portuguesa de Pediatria de que cerca de 54% das nossas crianças já tomaram antimicrobianos no seu primeiro ano de vida, facto que nos deve preocupar a todos. O peso das infeções virais neste grupo etário não pode ser nem ignorado nem esquecido. O contributo de opções farmacológicas erradas ou inadequadas, nestas idades, vai condicionar o aumento das resistências no futuro. Nunca é de mais recordar que se estima que na Europa morrem anualmente cerca cinquenta mil indivíduos por infeções graves não sensíveis aos antibióticos disponíveis! Os casos sempre mediatizados e que põem em cheque o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e relacionados com o aparecimento de estirpes bacterianas resistentes e multirresistentes está – inequivocamente – relacionada com a administração injustificada de antibióticos ou com um uso empírico, desmedido e incorreto, dos mesmos. Para além disso, o impacto no plano das reações adversas a medicamentos não pode ser minimizado em indicações e pacientes de risco. Também aqui os dados que se conhecem e que apontam para uma estimativa de cerca de 15% das admissões hospitalares nos países mais desenvolvidos, devem ser ponderados.

Parece-nos que seria útil prosseguir uma estratégia que, em relação aos cidadãos, os envolvesse na gestão da sua própria condição de saúde, a par de uma política de informação e promoção da saúde verdadeiramente nacional e, evidentemente, arrastando nesse projeto a comunicação social e quantos se arrogam o dever do interesse e do serviço públicos… Sem deixar de fora, obviamente, os farmacêuticos, sobretudo os comunitários, seguindo aliás exemplos atuais do Reino Unido e consubstanciados num protocolo articulado entre a National Association of Primary Care e a Royal Pharmaceutical Society (publicado no BMJ, 2015; 351:h4427).

Mas aos médicos e às instituições assistenciais do SNS, num genuíno e constante alinhamento com as campanhas de racionalização do uso de medicamentos antibióticos e de prevenção das resistências pede-se mais: pede-se que sejam cautelosos, mas não imprudentes, que sejam atentos, mas não precipitados, que sejam humanos… Mas que não deixem de ser médicos.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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