Jornal Médico Grande Público

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DATA
08/01/2016 12:37:46
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Vinho e Saúde - Afinal em que ficamos?...

Falemos de álcool. Mais concretamente, falemos de vinho.

O consumo de vinho é alvo corrente de notícias. Algumas, excelentes, referem a crescente qualidade e reconhecimento internacional dos vinhos portugueses. Outras abordam as polémicas legislativas relacionadas com a idade legal para consumo de bebidas alcoólicas. Outras, ainda, incidem nos aspectos directamente relacionados com a saúde e com o impacto nesta do consumo de vinho.

É, portanto, um tema comum e que, por isso, merece aqui algumas linhas.

Como ponto prévio, importa realçar o carácter adictivo do consumo de álcool e, como qualquer dependência, esta acarreta custos psicológicos, físicos e sociais tremendos devendo, portanto, ser evitada, precocemente detectada e tratada.

Por outro lado, o consumo de álcool em grandes quantidades num curto período de tempo tem efeitos graves e potencialmente fatais e associa-se a comportamentos antissociais que colocam em risco a vida de terceiros. Como tal, a restrição do seu consumo a menores, independentemente da definição de menor neste caso, e a forte penalização da condução sob efeito de álcool são bons exemplos de medidas que visam proteger o próprio e os que o rodeiam dos efeitos deletérios desse consumo.

Em 2014, Portugal surgia em sétimo lugar entre mais de 200 países, com um consumo médio anual de 42,2 litros de vinho por habitante e estes números demonstram eloquentemente a importância do consumo de vinho entre nós nos diversos planos económico, social e médico.

Revendo a literatura médica, encontramos inúmeros exemplos recentes dos efeitos benéficos do consumo moderado de vinho, sendo esta moderação muito subjectiva e dependente de factores individuais, mas geralmente quantificada como 250 ml de vinho tinto por dia para o homem e cerca de 175 ml para a mulher. Considerando que os diferentes vinhos apresentam teores alcoólicos muito diferentes, estes valores são meramente indicativos e, como referi, irão depender de factores como a idade, altura, peso, estado geral de saúde, consumo acompanhado de uma refeição ou com o estômago vazio, entre outros.

Colocando de lado essas considerações, é possível encontrar referências positivas ao consumo de vinho em áreas como a redução do risco de depressão, a prevenção do cancro de cólon, do pulmão, da próstata e da mama, efeitos antienvelhecimento, prevenção da demência, maior protecção contra a lesão cutânea causada pelas radiações ultravioletas, efeitos protectores sobre a função visual, uma melhor recuperação das células nervosas após um acidente vascular cerebral, um aumento dos níveis de ácidos ómega-3, prevenção da doença hepática não-alcoólica e da Diabetes tipo 2.

Trata-se de resultados interessantes que mereceriam uma análise mais cuidada que permitisse aferir e validar o seu significado estatístico mas que têm a seu favor serem apresentados e publicados por instituições credíveis, como o Jornal BMC Medicine, a Universidade de Leicester, a Harvard Medical School, o Cedars-Sinal Medical Center, a Universidade de Barcelona ou a Jonhs Hopkins University School of Medicine.

No outro extremo do espectro, o consumo excessivo de álcool surge associado a depressão, alterações da saúde mental, cardiomiopatia, arritmia, acidente vascular cerebral, hipertensão arterial, doença hepática alcoólica, hepatite, cirrose, pancreatite e diversas formas de cancro e de doença crónica.

Curiosamente, muitas das condições que o vinho parece proteger quando consumido moderadamente são as mesmas que ele desencadeia quando consumido em excesso…

Se a todos estes elementos retirarmos o ruído inevitavelmente associado a dados de menor qualidade científica e/ou publicados com segundas intenções, ficamos, ainda assim, com uma percepção do vinho como uma substância extremamente complexa cujos componentes exercem efeitos de diversa ordem sobre o organismo humano, a nível celular e molecular, e que, de um modo dose-dependente, pode beneficiar ou prejudicar inúmeros dos processos metabólicos que regem o funcionamento do nosso corpo.

É inegável que o vinho faz parte da nossa cultura e que tem um importante papel no plano relacional, enriquecendo uma refeição, facilitando a comunicação e sendo ele próprio cada vez mais um tema de conversa.

Fazer vinho tornou-se um processo crescentemente mais elaborado, daqui resultando vinhos mais bem feitos, com melhor qualidade e com atributos que em muito ultrapassam o seu mero consumo e fazem dele um objecto de culto, quase artístico, alvo de cursos, seminários, provas e proporcionando aos apreciadores momentos de inegável prazer.

Neste contexto, a promoção do vinho a obra de arte permite o acesso a mais e melhor informação e convida a um consumo moderado, mais consciente e esclarecido. Como tal, este enquadramento social e cultural do vinho ajuda a potenciar os seus aspectos benéficos.

Importa, contudo, não esquecer que esta noção gourmet do vinho é ainda relativamente restrita. Para muitos, o vinho é apenas vinho e o seu consumo é feito em quantidade sem qualquer procura ou interesse pela qualidade. E aqui surgem todos os problemas…

Como tal, a mensagem a reter será, de novo, a do bom senso. O consumo de vinho só fará sentido se for moderado e devidamente contextualizado. Toda a informação credível, sensata e honesta sobre o vinho ajudará a fazer dele uma companhia excelente e um parceiro saudável, proporcionando momentos de boa disposição, de puro deleite e de bem-estar.

Nesta época festiva lembrar tudo isto parece-me fazer sentido e é um excelente pretexto para a todos desejar um Santo Natal e um 2016 muito feliz e pleno se saúde!

Nota: texto escrito segundo a grafia anterior ao acordo ortográfico

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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