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Rui Tato Marinho: reunião monotemática internacional - Da Cirrose ao Cancro
DATA
19/01/2016 10:47:46
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Tato Marinho: reunião monotemática internacional - Da Cirrose ao Cancro

[caption id="attachment_17712" align="alignnone" width="300"]Marinho, Prof. Rui Tato Rui Tato Marinho - Professor Agregado em Gastrenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa - Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia[/caption]

As doenças hepatobiliares estão no “top ten” da mortalidade europeia, constituindo a sétima causa de morte no “Velho Continente”. Estima-se que em Portugal ocupem uma posição semelhante. No nosso país, as doenças do fígado e vias biliares são responsáveis por cerca de 2.500 mortes anuais, das quais mil são devidas a tumores malignos.

Quando se fala em morte por doença hepática deve ser considerado um trio constituído por cirrose hepática, carcinoma hepatocelular e o contexto da coinfecção Vírus da imunodeficiência Humana (VIH) com o vírus da hepatite C (VHC), entre outras causas.

Embora a etiologia principal de cirrose hepática em Portugal seja a alcoólica (~70-80%), as atenções estão hoje mais centradas na hepatite C, devido à forte inovação disruptiva, que resulta de uma linha de desenvolvimento de fármacos capazes de eliminar o vírus de forma definitiva em cerca de 90-95% dos casos.

Uma nova era na abordagem da infeção por VHC

O VHC é classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um vírus oncogénico afetando cerca de 3% da população mundial, ou seja, aproximadamente 170 milhões de habitantes.

A prevalência de anti-VHC oscila na Europa entre os 0,5 e os 2%, estimando-se que em Portugal possam existir 70 mil pessoas infetadas. O mais importante será cuidar dos que foram identificados por inquérito, realizado pelo Infarmed aos diversos hospitais e centros hospitalares, que quantificou em cerca de 13 mil o número de doentes diagnosticados. No entanto, sabemos que existem mais infetados: os que, por um lado, ainda desconhecem o seu estado e, por outro, os doentes localizados em algumas “bolsas” sociais, como sejam as prisões ou os centros de atendimento a utilizadores de drogas injetáveis. Defendemos que se deve promover a identificação dos casos não conhecidos, que por via de rastreio ou outra designação. Só assim será possível eliminar o “burden” ou o impacto futuro da hepatite C, que será crescente caso não se intervenha. Sabe-se que quase metade dos infetados (~45%) evoluiu já para cirrose, uma das situações médicas com maior risco oncogénico. De facto, a probabilidade de surgir carcinoma hepatocelular é de cerca de 10 a 40% ao fim de 10 anos em quem tem cirrose. Na Europa, 60% dos casos de carcinoma hepatocelular estão relacionados com o VHC.

Dada a importância social, morbilidade e mortalidade das doenças hepatobiliares, a Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) está a organizar uma reunião monotemática de âmbito internacional, cujo tema principal é “Da cirrose ao Cancro”. Este encontro irá realizar-se em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, no dia 6 de fevereiro de 2016. Iremos abordar a inovação dos vários temas da hepatologia moderna, mas o foco principal será a hepatite C e toda a sequência da infeção crónica, cirrose hepática e carcinoma hepatocelular. Os dados portugueses e a visão europeia da epidemiologia da hepatite C, bem como os dados da vida real com os novos tratamentos orais da hepatite C serão os temas com maior destaque nesta reunião.

Portugal é o único país do mundo, a seguir ao Egito, em que este tratamento é comparticipado integralmente pelo Estado. Os tratamentos têm na generalidade a duração de 12 semanas com eficácia na eliminação definitiva do VHC em 90-95% dos casos.

Na reunião estarão presentes elementos do Infarmed e dos centros hospitalares com maior experiência em Portugal que darão conta dos dados da vida real dos cerca de seis mil doentes em tratamento, principalmente com o Sofosbuvir/Ledipasvir. Estarão também presentes seis convidados estrangeiros que darão conta da experiência espanhola e da forte e continuada inovação terapêutica na área da hepatite C.

Os benefícios da eliminação definitiva VHC são muitos: eliminação do risco de contágio (sexual, materno-infantil, outros), regressão da cirrose hepática, quase anulação do risco de evolução para carcinoma hepatocelular, redução do “pool” social de portadores do VHC.

Ideias-Chave - Hepatite C

  1. A hepatite C crónica é uma entidade que decorre, habitualmente, sem sintomatologia (astenia, fadiga, eventualmente);
  2. Recomendamos que se faça o teste da hepatite C (anti-VHC) pelo menos uma vez na vida;
  3. A hepatite C é palco, hoje em dia, de um ambiente de inovação disruptiva, com a chegada ao mercado de vários antivíricos orais de ação direta, inibidores de vários segmentos do VHC: Sofosbuvir, Sofosbuvir + Ledipasvir, Daclatasvir, Simeprevir, Ombitasvir, Paritaprevir/ritonavir, Dasabuvir e dentro em breve Grazoprevir, Elbasvir. Estes fármacos estão considerados pela OMS como devendo fazer parte da “Lista de Medicamentos Essenciais”;
  4. A eficácia na eliminação definitiva do VHC ronda os 95%, de forma exclusivamente oral e muito poucas reações adversas;
  5. A infeção crónica pelo VHC é a primeira infeção vírica crónica e oncogénica em que o Homem consegue a cura definitiva.
Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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