Jornal Médico Grande Público

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DATA
15/02/2016 13:24:09
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Adesão ao tratamento - um constante desafio...

Como aqui já várias vezes escrevi, a melhoria das condições de vida das populações e a crescente diferenciação dos cuidados de saúde têm permitido um aumento significativo da esperança de vida. Semelhante facto é de aplaudir mas tem colocado inúmeros desafios às sociedades modernas. Por um lado, mais tempo de vida nem sempre significa mais qualidade de vida, novas doenças que anteriormente não tinham tempo para se manifestar passam a tê-lo, o número de pessoas sozinhas e/ou institucionalizadas vai aumentando e os custos com a saúde vão crescendo exponencialmente, criando constrangimentos éticos e económicos extremamente difíceis de gerir.

Um dos problemas criados por esta maior longevidade e pelo consequente acumular de condições clínicas é a necessidade de terapêuticas múltiplas, por vezes complexas, outras vezes com efeitos colaterais cruzados ou com interações potencialmente perigosas.

A polimedicação, para lá dos custos por vezes incomportáveis que gera para os pacientes e para os sistemas de saúde, revela-se frequentemente um verdadeiro quebra-cabeças e exige da parte dos médicos tempo e disponibilidade para ser bem explicada e, da parte dos pacientes, capacidade cognitiva e de memorização para reter e compreender todas as instruções.

Mesmo quando todas as instruções são fornecidas por escrito, o potencial para erros, trocas e esquecimentos existe, podendo comprometer a eficácia do tratamento, gerando sintomas e sinais que podem ser erroneamente atribuídos às doenças de base e tornando a avaliação clínica mais difícil.

Tudo isto é ainda mais complexo se assumirmos, como muitas vezes sucede, que o paciente que não toma sua medicação afirma cumprir o tratamento corretamente, seja por vergonha em confessar o contrário, seja por não querer assumir a sua dificuldade financeira, seja por considerar que fez realmente tudo bem. E, nestes casos, torna-se ainda mais difícil para o médico valorizar o que observa nos seus pacientes.

As próprias bulas dos medicamentos tendem a gerar confusão. Um medicamento que deve ser tomado duas vezes por dia pode ter essa indicação referida como “de 12 em 12 horas” ou “duas vezes por dia”. Se o paciente se esquecer do que lhe disse o médico e recorrer à bula poderá ficar confuso, aspeto ainda mais relevante se considerarmos a idade avançada de grande parte dos pacientes polimedicados.

Noutros casos, a leitura exaustiva do resumo de características de um medicamento gera ansiedade e receio nos pacientes que preferem não o tomar com receio dos inúmeros eventos adversos que ele potencialmente pode causar.

A tolerabilidade aos medicamentos é outro aspeto a ter em conta. Muitos pacientes deixam de tomar um medicamento porque se sentem mal com ele.

No caso da medicação a longo prazo, a alteração de um medicamento original para um genérico com uma embalagem completamente diferente ou uma alteração no formato ou na cor de um comprimido ou cápsula pode perturbar toda a rotina do paciente.

Num estudo realizado nos Estados Unidos envolvendo 11.000 pacientes que tiveram alta depois de um enfarte do miocárdio, verificou-se que 29% tomaram medicamentos que mudaram de cor ou de forma ao longo do primeiro ano, período durante o qual uma rigorosa adesão ao plano de tratamento é crucial. E estas alterações parecem ser a causa de uma interrupção terapêutica em 34% dos casos quando a alteração é na cor e em 66% dos casos quando é a forma que é modificada.

Como ultrapassar estas questões?

Nunca existirá um sistema que garanta uma adesão total de todos os doentes em todos os momentos.

A melhor forma de minimizar riscos relacionados com o não cumprimento terapêutico passa por uma combinação de medidas:

  • Avaliação clínica rigorosa, de modo a serem selecionados os medicamentos necessários e o seu potencial de interação;
  • Após essa avaliação, procurar optar por esquemas terapêuticos o mais simples que for possível, idealmente com não mais do que quatro tomas diárias;
  • Tempo para explicar toda a medicação;
  • Adaptação da linguagem às capacidades de cada paciente;
  • Aferição da capacidade financeira do paciente para poder adquirir tudo o que é prescrito;
  • Recurso a ferramentas escritas, como calendários, onde todos os medicamentos a tomar estejam claramente identificados de um modo prático, legível e descomplicado;
  • Disponibilidade para atender os pacientes sempre que ocorram dúvidas;
  • Avaliação clínica regular com aferição do grau de adesão e reavaliação dos ajustes que se revelarem pertinentes;
  • Numa perspetiva regulamentar, procurar que os fabricantes de medicamentos genéricos produzam medicamentos semelhantes na cor e forma aos medicamentos originais. Refira-se que a FDA, em junho de 2015, emitiu recomendações nesse sentido.

Num estudo recente, mostrou-se que a não adesão ao tratamento na Diabetes tipo 2 era um fator independente de mortalidade. Outros estudos revelam que até 60% de toda a medicação prescrita é tomada de forma incorreta ou nem sequer o é. Sabe-se também que a não adesão ao tratamento afeta de um modo adverso a qualidade de vida e aumenta a mortalidade e o risco de nova hospitalização. E muitos mais exemplos poderiam ser citados.

Como tudo na vida, a moderna Medicina resolve problemas mas vai criando outros e é destes novos desafios que ela se alimenta para se manter sempre inquieta, sempre em busca de algo mais que permita proporcionar a todos uma vida não apenas mais longa mas, sobretudo, mais saudável.

Tratar um doente, medicar um paciente é, cada vez mais, uma arte e um desafio a que todos nós temos de saber dar resposta de modo a que desse tratamento resultem todos os benefícios e não o seu contrário.

É, de facto, um grande desafio. Mas sem desafios isto seria tudo menos interessante...

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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