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José Agostinho Santos: batalhas emocionais sem desafios
DATA
15/02/2016 15:29:03
AUTOR
Jornal Médico
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José Agostinho Santos: batalhas emocionais sem desafios

[caption id="attachment_12142" align="alignnone" width="300"]Jose_Agostinho_Santos José Agostinho Santos - Lavra, USF Dunas - ULS, Matosinhos[/caption]

Recordando os momentos de vida inscritos em 2015, emergem os desafios que qualquer Médico de Família terá tido, quer aqueles que entraram pela porta (e que nos trouxeram as más notícias, as lágrimas sem aparente consolo possível e a mentira disfarçada de verdade…), quer aqueloutros que entraram pelo computador (as mil e uma falhas dos sistemas e as horas perdidas em busca de agulha em palheiro informático…).

E que ano cheio de desafios! Todos eles fenómenos que absorveram a nossa atenção e muito do tempo de acção e reflexão.

Muitos foram superados, numa batalha emocional, tantas vezes injusta.

Esta foi a nossa realidade. Assim como a de tantos pacientes, cada um nas suas áreas profissionais. Apesar de uma visão global sobre os desafios superados ser profundamente reconfortante, neste final de ano faço uma constatação ainda mais positiva: a de que tantos de nós, sejamos nós o médico ou o paciente, superámos batalhas emocionais sem que as tivéssemos sequer entendido como desafios. Refiro-me a esta constatação de que somos todos capazes de gestos de sublime bondade ou fluída generosidade sem que haja uma força egóica que nos trave. É uma experiência inebriante tornar consciente a batalha acabada de travar, como a do caminhante que chega ao cimo da montanha e só aí compreende como foi capaz de atravessar a floresta densa.

Deixo-vos o exemplo simples que me fez despertar para esta reflexão. O exemplo parte, naturalmente, de uma experiência clínica decorrida há algumas semanas: um paciente dador de sangue e de medula vem a uma consulta em que são abordadas as causas da sua recente perturbação da saúde mental, incluindo o conflito com um familiar. Sendo eu médico de família, tenho como "vantagem" ser médico de mais elementos da família, incluindo desse mesmo familiar que havia iniciado uma intercorrência oncológica com necessidade de transfusão de sangue e medula. Sem abrir “brechas” que pudessem corromper o sigilo e confidencialidade dos envolvidos, dei por mim a pensar em voz alta em como as pessoas podem ser extremamente bondosas para com quem sentem não gostar. "Provavelmente, o sentir que se não gosta não corresponde à verdade… Tratar-se-á apenas de um produto falso do seu ego...", disse eu no remate da consulta. O paciente seguiu com o olhar o meu próprio olhar, centrado na bondade dele próprio.

A doação de sangue faz-se a pessoas com diferentes personalidades. Algumas delas, certamente, causam sofrimento aos outros. Logo, tratar-se-á, de facto, de um gesto brilhantemente generoso decidido sem que o ego interfira no julgamento. Fica apenas presente uma bondade pura!
Quem diz doação de sangue, diz qualquer outro gesto de bondade em que, sem esforço nenhum, se fará o melhor por quem em algum momento se pode estar em conflito. Porquê, então, entrar em conflito no ponto de partida?...

O ano 2015 terminou assim… Com esta visão positiva sobre tudo o que de bom se faz por aí. Fascinado. Rendido. Esperançoso.

Assim é a vida! Bom ano novo!

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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