Rui Cernadas: do “tempo escandinavo” à insuficiência cardíaca
DATA
17/02/2016 12:41:35
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Jornal Médico
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Rui Cernadas: do “tempo escandinavo” à insuficiência cardíaca

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Ter um livro novo por perto faz por mim o que, provavelmente, um telemóvel de décima quarta geração e aplicações anunciadas para o século XXII não conseguem: despertar-me, entusiasmar-me e levar-me a pensar. É verdade que os meus dedos não se exercitam nem teclam da mesma forma que muitos já se habituaram a fazer. Como também é certo que não poupo mais os olhos do que quem os concentra naqueles poucos centímetros quadrados dos ecrãs dos smartphones, tablets e telemóveis.

Mas o prazer do folhear os livros, o cheiro do papel novo, a descoberta dos autores e a leitura dos textos deixa-me inebriado.

Ora, a quadra natalícia, mais do que um período excelente para mexer em livros, propicia uma oportunidade renovada para que sob o pretexto de adquirir alguns para oferecer a amigos e familiares, ver e espreitar as novas edições ou rever as obras que, por uma ou outra razão – para além da do custo – nem sempre conseguimos levar para casa.

“Tempo escandinavo” é um desses casos; um livro de contos escrito por José Gomes Ferreira, notável ficcionista e colaborador de revistas como a “Presença” ou a “Seara Nova”, homem de ideias e de ideais, ligado ao grupo do “Novo Cancioneiro”.

Estes contos, publicados em 1969, evocam de algum modo a sua passagem pela Noruega, onde entre 1926 e 1929 exerceu as funções de cônsul de Portugal na cidade de Kristiansund.

Deixo-vos um convite à sua leitura, em especial do conto “A Cidade Despida”, sugerindo-vos que o que leiam seguindo as instruções do autor:

- “Calçamos as galochas, descemos as escadas e encontrámo-nos na rua da Cidade Vestida de frio branco.”

Conselho dado, avanço para outro tema, sempre presente e sobre o qual nunca é demais acrescentar alguma coisa: a insuficiência cardíaca, um problema que em Portugal é claramente subestimado.

Tomando como fonte a prevalência aferida a partir dos dados do Estudo “EPICA”, já de 1998, confrontamo-nos em Portugal com taxas superiores a 16% entre a população com mais de 80 anos de idade.

As atuais tendências demográficas vieram agravar o quadro, ao revelarem uma elevada incidência da doença em escalões etários mais jovens; em indivíduos ainda em idade ativa, facto a que se associa, para além de um acréscimo significativo de custos, um aumento da procura de cuidados de saúde e com ela a necessidade de os cuidados de saúde primários terem de ser chamados a intervir.

Um enquadramento estratégico do problema deverá incluir e sublinhar a importância da insuficiência cardíaca enquanto síndroma no Programa Nacional de Doenças Cérebro e Cardiovasculares; a atualização em termos de formação específica e diagnóstico precoce, a adequação e inclusão de exames diagnósticos como os biomarcadores peptídeos natriuréticos nas tabelas dos MCDT comparticipados no âmbito dos cuidados primários; a padronização formal no tocante aos relatórios dos MCDT, como os ecocardiogramas, a preparação para a prevenção pela intervenção precoce em meio ambulatório; o reforço da articulação e integração de cuidados entre médicos de família, internistas e cardiologistas… Enfim, a criação de novos indicadores clínicos que alarguem interesses e responsabilidades servindo a saúde dos utentes do SNS e os portugueses.

A discussão desta estratégia não cabe num artigo de opinião, numa crónica.

Também não é esse o objetivo.

Apesar do reconhecimento dos sinais e dos sintomas da insuficiência cardíaca ser essencial para um diagnóstico atempado, também é sabido que mesmo no contexto do diagnóstico hospitalar, seja pela urgência, seja pelo internamento, a síndroma é fracamente referenciada enquanto diagnóstico principal no retorno aos CSP.

O facto de os doentes serem cada vez mais um enorme somatório de comorbilidades, pode reunir um quadro de factores de confundimento e assim dificultar a instituição do diagnóstico.

É por isso que, igualmente, o envolvimento dos doentes e dos seus cuidadores no conhecimento da insuficiência é uma dimensão a não ignorar neste combate.

A identificação de doentes em risco pode facilitar o diagnóstico e torná-lo menos tardio e assim menos complicado.

Termino com uma frase que ouvi e anotei, algures, num congresso recente da cardiologia, atribuída a L. Frank Baum: “os corações nunca serão práticos enquanto não forem feitos para não se partirem”…

800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde
Editorial | Jornal Médico
800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde

Se não os tivéssemos seria bem pior! O reforço do Programa Operacional da Saúde com 800 milhões de euros pode ser entendido como sinal político de valorização do setor da saúde. Será uma viragem na política restritiva? O Serviço Nacional de Saúde (SNS) de 40 anos precisa de cuidados intensivos! Há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções. É urgente pensarmos na nova década com rigor e disponibilidade sincera.

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