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Jaime Teixeira Mendes: Dia Mundial da Tuberculose, a natureza mãe ou madrasta
DATA
24/03/2016 14:17:57
AUTOR
Jornal Médico
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Jaime Teixeira Mendes: Dia Mundial da Tuberculose, a natureza mãe ou madrasta

[caption id="attachment_18608" align="alignnone" width="300"]Jaime Mendes OM1 Jaime Teixeira Mendes, Presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos[/caption]

O Dia Mundial da Tuberculose celebra-se a 24 de março. Nesse dia, no longínquo ano de 1882, Robert Koch, um dos pais da medicina moderna, anuncia, em reunião da Sociedade de Fisiologia de Berlim, a descoberta da bactéria causadora da doença, o Mycobacterium tuberculosis. Logo na altura, Koch preveniu também para a possível sobrevivência a longo prazo de formas infetantes após a cura clínica, alertando que os portadores sãos representam uma ameaça para a sociedade.

Robert Koch recebeu o prémio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1905.

Anos depois rebenta na Europa a 1.ª Guerra Mundial e o aviso deste sábio bacteriologista confirma-se da pior maneira: a tuberculose espalhou-se nas trincheiras e os mais afetados e com maior gravidade foram os soldados negros do Sudão e do Senegal a combaterem em França.

Borrel, médico e bacteriologista, estudou esta epidemia e chamou a atenção para a gravidade da primoinfeção do adulto, população que até ao serviço militar não havia sido infetada pelo bacilo de Koch (ao contrário dos soldados europeus). Pertenciam a raças que nunca, ou só episodicamente, tinham estado sujeitas à infeção, e sobre as quais nunca se havia exercido a ação seletiva da endemia tuberculosa.

Muito mais recentemente, Sebastien Gagneux e colaboradores sequenciaram o genoma completo de 259 cepas da bactéria Mycobacterium tuberculosis, colhidas em diversas partes do mundo, em estudo realizado no Instituto de Saúde Pública e Tropical Suíço, publicado na Nature Genetics, revista internacional de alto nível científico reconhecido.

Ao compararem a árvore evolutiva da bactéria com a do ser humano, os pesquisadores descobriram semelhanças que indicam uma relação próxima entre eles: ambos surgiram em África, emigraram juntos e expandiram-se por todo o mundo. O Homo sapiens transporta o bacilo há 70.000 anos, ainda antes da sua saída de África para se espalhar pelo planeta.

Ainda hoje as grandes aglomerações em locais com pouca higiene são pasto fácil para o bacilo da tuberculose.

Em 2011, a tuberculose matou 1,4 milhão de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde. Podemos especular que o aparecimento do bacilo se deveu a um desequilíbrio ecológico, uma erupção vulcânica que provocou uma redução da temperatura causada por cinzas vulcânicas e ácido sulfúrico, obscurecendo o Sol e diminuindo o albedo, levando a um muito grande arrefecimento.

Analisemos então como se propagaram os vírus mais virulentos destes últimos anos: Vírus da Imunodeficiência Humana, Ébola, Zika.

A SIDA, com 15 milhões de pessoas em tratamento antirretroviral em 2015, é uma das grandes epidemias do século XX, cujo vírus teve origem na floresta, escapou-se dela e só se mantém pela transmissão humana independente das florestas.

O Ébola (África Ocidental) ou Zika são também provocados por vírus cuja emergência é diretamente associada às florestas, representando cerca de 15% das doenças infecciosas emergentes, como explica um relatório das Nações Unidas publicado em 2005.

O Zika, que calcula-se atingirá 3 a 4 milhões de pessoas no mundo este ano, tem o nome da floresta ugandesa onde foi identificado pela primeira vez.

A destruição das florestas virgens provocada pelos seres humanos, hoje de forma muito diferente da catástrofe ambiental de há 70 000 anos e seja por que motivo for, liberta verdadeiros reservatórios de bactérias e vírus.

Exemplo disso é o que se passou em Dezembro de 2013, quando um morcego acossado do seu meio privado de recursos naturais se aproximou das habitações mais próximas, infetando a primeira vítima do Ébola, uma criança de 2 anos.

Será que Rousseau tinha razão? Ou, sem romantismo, devemos dizer que a natureza primária não passa de um ninho de vírus e bactérias?

A verdade é que somente quando quebramos o seu equilíbrio, ou seja, quando destruímos o ecossistema das florestas é que a natureza se torna hostil e incontrolável.

O alerta já foi dado em 2015 na Conferência de Paris sobre o Clima: as mudanças climáticas continuam a representar um papel significativo na destruição do ecossistema. O aquecimento global leva ao aumento da temperatura, dos níveis dos mares e de acidez do oceano, rompendo o equilíbrio natural do ecossistema. Que perigos e novos vírus vamos ainda conhecer?

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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