Rui Cernadas: inovação e investigação
DATA
13/04/2016 18:37:49
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Jornal Médico
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Rui Cernadas: inovação e investigação

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - médico de família em funções no Conselho Diretivo da ARS do Norte, IP - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Assistimos muitas vezes à discussão sobre o acesso aos fármacos inovadores, muitas vezes alimentada pelo “ruído” da comunicação social… Frequentemente abordados por jornalistas generalistas, com pouca preparação na área da Saúde.

Não querendo discutir o significado de inovação, parece-me, ainda assim, que a questão se deve centrar no papel dos avanços terapêuticos e no impacto que estes possam ter em resultados de saúde.

Na Oncologia, por exemplo, há que perceber se falamos, ou não, de tratamentos de “fim de linha”, com ação paliativa, se permitem ganhos de sobrevida ou de qualidade de vida ou, até, na área do diagnóstico, eventualmente, em tecnologias porventura menos invasivas, mas específicas ou mais eficientes, por exemplo.

Ao mesmo tempo, porém, o tabaco, que constitui sem dúvida uma das principais – senão a principal – causa de cancro entre nós, para além das múltiplas e demonstradas repercussões na saúde, não merece, por parte dos “media”, a atenção que poderia contribuir para uma verdadeira campanha de saúde pública e de cidadania.

Não basta que os governos limitem a publicidade nos estádios e outros recintos desportivos, ou nas televisões, ou até nos circuitos televisivos mais convencionais, porque na verdade todos veem o tabaco como um veículo fiscal relevante…

Seria bom que a campanha contra o tabagismo encarasse as vertentes do ciclo global da adicção, entendendo as fases experimental, comportamental e da necessidade.

Mas também é não de tabaco que vos quero falar hoje.

Em Portugal, a investigação clínica tem vindo a sofrer transformações significativas, ainda que, sem dúvida, continue a resultar maioritariamente das apostas e do investimento da indústria farmacêutica.

Vemos os maiores hospitais a captarem ensaios clínicos importantes e a serem seguidos pelos mais pequenos, igualmente apostados numa via de acesso a maior qualidade na prestação de cuidados de saúde e de actualização dos profissionais que integram as equipas de investigação.

Também os cuidados de saúde primários, com o seu manancial de unidades, de profissionais, de condições e de organização do trabalho e do quadro assistencial de base populacional, despertam para esta realidade e vão aparecendo os primeiros envolvimentos de várias USF nessa linha, com o apoio da Unidade de Investigação Clínica da ARS do Norte.

Tem sido reportado, pelo menos desde 2013, data da publicação de um estudo da Price Waterhouse Coopers que, para o nosso país, por cada euro investido em ensaios clínicos, o retorno esperado é de cerca de dois euros!

Na verdade, o SNS muito tem a lucrar com estas iniciativas, tanto mais que, para um bom nível assistencial e de prestação de cuidados, há que ter profissionalismo, competência técnica e formativa e investigação!

É claro que as necessidades em saúde são sempre prementes e estão em constante evolução, num mundo no qual as agências reguladoras se tornaram mais exigentes e atentas e as empresas farmacêuticas consagram significativa canalização de meios e recursos para os sectores dos assuntos regulamentares, da gestão de risco e notificação de efeitos adversos ou inesperados, para as boas práticas internacionais e qualidade dos processos.

O papel das associações de doentes – ou em torno de doenças – sem perder de vista os interesses mais legítimos na defesa dos respetivos direitos, assume hoje uma dimensão nunca vista.

Tudo isto para concluir que, não só pelas condicionantes económicas e financeiras da indústria, os processos ligados à investigação clínica estão também em mudança.

Desde logo, pela obrigação – recorrentemente demonstrada – de entre as agências do medicamento, os governos e as farmacêuticas se definir ou desenhar um novo modelo que facilite – em tempo – que não em exigência e conhecimento, o prazo de aprovação dos novos medicamentos. E porque isso significa que países como Portugal não podem deixar passar as oportunidades de investigação.

A própria Ordem dos Médicos deve manter-se empenhada neste esforço nacional e o facto de ter, desde 1997, uma Competência em Medicina Farmacêutica pode e deve ser aproveitado como uma outra oportunidade de interesse.

Como sempre e em tudo, ganha quem tem visão estratégica, capacidade de antecipação e sentido de oportunidade…

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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