Jornal Médico Grande Público

"O nosso doente"
DATA
07/01/2019 16:00:05
AUTOR
Sofia Pinheiro Torres
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"O nosso doente"

A reforma dos cuidados de saúde primários (CSP) trouxe ganhos inequívocos na acessibilidade e qualidade dos cuidados prestados pelo médico de família (MF) aos seus utentes.

Em minha opinião, no entanto, partindo da visão holística que caracteriza a Medicina Geral e Familiar (MGF), continuam a existir falhas na articulação entre o centro de saúde (CS), por um lado, e o hospital, por outro, assistindo-se, diariamente, à fragmentação do doente em dois: "o doente seguido no CS" e o "doente hospitalar", também ele, não raras vezes, partido nas diferentes especialidades.

Esta realidade foi, por mim, verificada nos diferentes estágios hospitalares que frequentei. Frases como "isso é com o seu MF" ou " tem de perguntar ao seu médico no hospital" são frequentes ao nível das consultas.

Não há dúvida que o ALERT e, mais recentemente, a Plataforma de Dados da Saúde (PDS) vieram facilitar a comunicação entre os dois níveis de cuidados. É necessário, contudo, ir além das plataformas informáticas e potenciar o contacto direto entre as equipas dos CSP e as equipas hospitalar, de preferência estabelecendo contactos pessoais que mais tarde se traduzirão em relações de confiança e partilha de conhecimento entre todos os intervenientes.

Tive a oportunidade de verificar estas mais-valias quando tive que referenciar doentes para serviços hospitalares onde tinha feito estágio, concluindo que o conhecimento prévio dos profissionais para os quais os estava a referenciar era facilitador de todo o processo, gerando, inquestionavelmente, ganhos para o doente na qualidade dos serviços que lhe viriam a ser prestados.

Este contacto direto pode, desde logo, ser facilitado através da realização de consultadorias ou visitas dos profissionais dos CSP aos hospitais de referência das suas unidades, bem como, desses profissionais aos CSP. Importa, no entanto, que estes contactos sejam regulares e promovidos pelos profissionais que trabalham no terreno, de forma voluntária como se de hábitos de trabalho se tratassem, mais do que esporádicos ou "forçados" pela administração das suas unidades.

Só assim se poderão colmatar as verdadeiras necessidades sentidas e estimular a confiança entre os diferentes profissionais, obtendo ganhos consideráveis para o doente na qualidade dos cuidados que lhe são prestados, prosseguindo, afinal, o que qualquer médico considera ser o seu principal objectivo: conseguir o melhor para o seu doente.

Não se trata, na verdade, de uma pluralidade de doentes, cuja ”história clínica” se multiplica na exata medida das entidades por quem são seguidos, nem de um doente que pode ser “fracionado” pelos diversos responsáveis pelo seu acompanhamento.

Não se pode esquecer que estamos perante um único doente, verdadeiramente indivisível, sob pena de, continuando a “espartilhá-lo, contrariando a sua natureza, se perder o sentido e dimensão daquele que, longe de ser o “objeto” das preocupações dos intervenientes no sistema, deve, antes, ser o sujeito de todas as nossas atenções.

E este sujeito não pode (continuar a) ser o “meu doente no hospital” ou “o meu doente no CS”, mas, inequivocamente, “o nosso doente”.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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