Jornal Médico Grande Público

Exercício Físico – Da consulta à comunidade
DATA
09/07/2019 10:18:46
AUTOR
Catarina Nogueira
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Exercício Físico – Da consulta à comunidade

De acordo com os dados do Eurobarómetro Especial 472 - Desporto e Atividade Física de dezembro de 2017, 68% dos portugueses nunca praticam desporto e 64% nunca realizam qualquer tipo de atividade física informal (deslocação para o emprego, jardinagem ou dança).

Como principais motivos para não realizar atividade física com regularidade, salienta-se a indisponibilidade de tempo, ausência de motivação e custos financeiros. Hoje em dia, são indiscutíveis os benefícios da atividade física. Está comprovado que a sua realização contribuiu não só para a prevenção mas também para o tratamento de um grande número de patologias, sendo benéfico para todos os grupos etários.

Os Médicos de Família desenvolvem a sua atividade em proximidade com os utentes, famílias e comunidade, sendo a prevenção da doença e promoção da saúde um dos pilares da sua atuação. Atualmente, nos Cuidados de Saúde Primários, existem algumas ferramentas que permitem estimar o tempo que cada utente passa sentado, bem como o tempo despendido semanalmente a praticar atividade física. Apesar da Entrevista Motivacional ser fundamental para a alteração de comportamentos é essencial a existência de recursos na comunidade que facilitem a sua realização, nomeadamente percursos pedestres seguros (delineação dos quilómetros do percurso), grupos de corrida e atividades organizadas nos municípios.

Reflito muitas vezes nesta temática, uma vez que no final de um dia de trabalho considero que as mudanças de estilo de vida, são uma linha fundamental de qualquer doença crónica e que muitas vezes não conseguimos “chegar” ao doente. Quantas vezes nas consultas de vigilância de doentes com diabetes insistimos na alteração da alimentação e prática de exercício físico e acabamos por aumentar a medicação? O que será que está a falhar? Considero que algumas das justificações dos doentes para não praticar exercício físico são plausíveis e revejo-me em algumas delas, mas enquanto não percebermos que o exercício físico deverá fazer parte do nosso dia-a-dia, este paradigma não irá mudar. São várias as iniciativas realizadas na Unidade Saúde Familiar para fomentar o exercício físico (no Dia do Médico de Família, Dia Mundial da Diabetes, entre outros) sendo desanimador o número de pessoas que participam… será a nossa expectativa demasiado elevada? o horário pouco oportuno? será por ser um evento pontual? será que o trajeto destinado à caminhada não é apetecível? será a forma de divulgação inadequada?

Fora do âmbito de trabalho, e em parte como prevenção do burnout, tenho como hobby fazer caminhadas e/ou corridas. Desde 2016 faço parte de um grupo de corrida chamado “Pernetas”,Fora do âmbito de trabalho, e em parte como prevenção do burnout, tenho como hobby fazer caminhadas e/ou corridas. Desde 2016 faço parte de um grupo de corrida chamado “Pernetas”,constituído por 40 elementos, do Porto. Em 2018 decidimos realizar um treino mensal (primeira sexta-feira de cada mês), pelas 21h, na LIPOR em Gondomar, local seguro, com trilho ecológico, disponível gratuitamente, aberto à comunidade. Este evento foi divulgado e partilhado através da página do facebook “Pernetas à sexta”. Tivemos a participação da atleta Aurora Cunha (ex-corredora de alta competição) num dos eventos e ao longo do ano obtivemos uma média de 50 participantes. Confesso que não divulgava ativamente na consulta esta iniciativa e curiosamente vi utentes aderirem ao evento, inclusive na consulta de apoio intensivo à cessação tabágica. Fiquei feliz!!! Que maravilha! Consegui motivar de modo indireto os utentes a virem participar num trajeto de 10km ou 5km, de corrida ou caminhada, respetivamente. Foi gratificante a presença dos utentes e perceber que sessão após sessão estes mantiveram a sua motivação. Apesar da participação mensal acredito que esta iniciativa terá sido apenas um começo para a prática de exercício físico e estilo de vida mais saudável.

“Pessoas Mais Ativas para um Mundo Mais Saudável” foi o tema escolhido pela Organização Mundial da Saúde para o Plano de Ação Mundial da Atividade Física 2018-2030. Este documento cede aos países orientações para promoverem a atividade física junto das populações, nomeadamente através da criação de ambientes seguros e acessíveis, para pessoas de todas as idades. Através desta iniciativa criada pelo grupo em que participo, conseguimos de forma simples aliar os 3 alicerces para reduzir a inatividade física – criar sociedades ativas, criar ambientes ativos e criar pessoas ativas.

Esta iniciativa teve início num desafio no seio do grupo de corrida mas conseguiu motivar e trazer mensalmente dezenas de pessoas a realizarem atividade física e a conviverem; divulgou para a grande maioria dos participantes um trajeto seguro disponível nos recursos da comunidade para a prática de corrida ou caminhada assim como exercício funcional. Como futura médica de família e corredora nos tempos livres, fiquei surpreendida pelo impacto da iniciativa e do quão importante é estar próximo da comunidade.

 

 

Bibliografia:

1. “Special Eurobarometer 472 – Sport and Physical Activity, December 2017” (acedido em www.panaf.gov.pt/wp-content/uploads/2018/02/Eurobarometro-AF2018.pdf a 20/05/2019)2.

2. “Programa Nacional para a Promoção de Atividade Física 2017” (acedido em https://www.sns.gov.pt/wp-content/uploads/2017/10 /DGS_PNPAF2017 _V7.pdf a 20/05/2019)3.

3. Plano de Ação Global para a Atividade Física 2018-2030 (acedido em https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/272721/WHO-NMH-PND-18.5-por.pdf a 20/05/2019)

Saúde Pública

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