Jornal Médico Grande Público

Colocação de dispositivos intra-uterinos nos Cuidados de Saúde Primários – porque não?

A contraceção constitui a pedra basilar para prevenir a existência de uma gravidez não planeada.

De entre os vários métodos disponíveis, a contraceção de longa duração destaca-se por se tratar de um conjunto de métodos contracetivos reversíveis, de elevada eficácia, que atuam por um longo período de tempo, configurando uma opção não cirúrgica de prevenção da gravidez com eficácia comparável aos métodos cirúrgicos (laqueação tubária).

Em Portugal, o método contracetivo mais utilizado é a pílula1. Diversos estudos indicam que tanto o conhecimento como o uso de outras opções contracetivas é reduzido, não obstante o facto de a contraceção de longa duração ser um método muito eficaz, com poucos efeitos secundários, associado a taxas altas de satisfação e de continuação, mesmo em jovens adultas e adolescentes. No entanto, este número tem vindo a crescer nos últimos anos1. Tanto o implante contracetivo como a contraceção intrauterina são métodos convenientes, seguros e muito eficazes, estando recomendado como primeira-linha em todas as mulheres, mesmo nas nulíparas.

Convém não esquecer, porém, que não são apenas as pacientes a demonstrar resistência perante a escolha da contraceção de longa duração, sobretudo a intrauterina.

Existem, de facto, várias unidades com experiência de colocação dos DIU/SIU, com sucesso, sem que isso implique referenciação a consulta hospitalar de ginecologia. A acessibilidade deste método e a formação de mais colegas na colocação destes métodos nos Cuidados de Saúde Primários permite, por si só, diminuir uma barreira à utilização deste método: o tempo de espera para a sua colocação.

Às pacientes é fornecido habitualmente a informação para tomada de decisão informada relativa à colocação do método na data em que se decidem pela contraceção intrauterina, sendo descontruídos os mitos frequentemente associados à contraceção intrauterina: risco de Doença Inflamatória Pélvica, risco de gravidez ectópica, risco de infertilidade, infeções. São explicados os tipos de dispositivos existentes e é avaliado, em conjunto com a paciente, a pertinência do uso de contraceção intra-uterina de longa duração em comparação com os outros métodos contracetivos, nomeadamente benefícios e riscos no seu caso em particular.

Caso se opte por este método, na data de colocação do dispositivo é assinado o consentimento informado livre e esclarecido, ficando as pacientes com uma cópia do mesmo.

De facto, a colocação de dispositivos intra-uterinos é, após formação adequada, exequível e enquadrável na prática clínica dos médicos de família, disponibilizando-se assim um método eficaz e seguro de prevenir a gravidez a todas as mulheres em idade fértil. Porque não fomentar a sua colocação nos Cuidados de Saúde Primários?

 

 

  1. Águas, F., Bombas T., Pereira da Silva D., Evaluation on portuguese women contraceptive practice: Acta Obstet Ginecol Port 2016;10(3)
Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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