Consulta de cessação tabágica no ACES Gondomar - a experiência de uma equipa de saúde
DATA
06/08/2019 10:27:38
AUTOR
Catarina Nogueira
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Consulta de cessação tabágica no ACES Gondomar - a experiência de uma equipa de saúde

O consumo de tabaco é um grave problema de saúde pública, uma vez que tem impacto na população fumadora mas também na não fumadora. É uma causa reconhecida de doença oncológica, cardiocerebrovascular, pulmonar e de complicações na gravidez. O relatório “Portugal – Prevenção e Controlo do Tabagismo 2017”, da Direção-Geral da Saúde, estima que em 2016 morreram em Portugal mais de 11800 pessoas por doenças atribuíveis ao tabaco, o que corresponde à morte de uma pessoa a cada 50 minutos, assim como uma em cada 4 mortes no grupo etário dos 50-59 anos é devida ao tabaco.  

Nos últimos anos foi promovida a criação de mais consultas de cessação tabágica com o objetivo de todos os Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) possuírem uma agenda dedicada a esta área. Em novembro de 2017, o ACES de Gondomar, que desenvolveu o projeto durante alguns meses, deu início à realização de consulta de apoio intensivo à cessação tabágica (CAICT). Os doentes são referenciados pelo seu médico e/ou enfermeiro de família através de uma plataforma Google criada pela equipa. A consulta realiza-se em dois polos – S. Cosme e Rio Tinto, em quatro dias de semana e dois horários disponíveis, e tem apoio nutricional e psicológico para casos selecionados.

A criação e desenvolvimento deste projeto foi um verdadeiro desafio. Desde logo pela elaboração do Manual de Procedimentos da Consulta, pela criação das “duplas” de trabalho (médico/enfermeiro) (o secretário clínico seria rotativo e pertencente à Unidade de Saúde onde se realiza a consulta), criação e divulgação da plataforma de referenciação, planeamento do agendamento e início desta nova atividade.

Ao longo de 6 meses, eu e a enfermeira com quem trabalho, realizamos 102 consultas (56 contactos presenciais e 46 contactos telefónicos), sendo que quatro utentes se encontram em cessação tabágica, há 2,4,5 e 6 meses, respetivamente. Os doentes avaliados possuíam em média 46,8 anos e permaneceram 22 dias em espera para a consulta. 75% já tinham tentativas prévias para deixar de fumar e apresentavam uma carga tabágica média de 26,33 unidades maço ano. Os principais motivos de referenciação foram: fumador que consome mais de 20 cigarros/dia, fatores de risco cardiovascular e mulheres em planeamento familiar. Em todos os utentes foi realizada uma intervenção cognitivo comportamental e o principal fármaco prescrito foi a vareniclina (54,17%).

Como Interna, considero que a CAICT tem particularidades diferentes da atividade diária do médico de família, tornando-a num complemento bastante desafiador. Destaca-se a “ainda maior” proximidade e acessibilidade (esquema de consultas e contactos telefónicos adaptadas às necessidades dos doentes) e a mais longa duração da consulta. O trabalho de proximidade do médico(a)/enfermeiro(a) é um elemento essencial para o processo de cessação tabágica. Quanto ao agendamento, 45 minutos é o tempo despendido numa primeira consulta, 20-30 minutos numa segunda consulta. O primeiro contacto é um elemento chave para o conhecimento do utente, nomeadamente “a sua relação com o tabaco - passada e presente” mas também todos os outros problemas de saúde, medicação habitual e antecedentes familiares. Considero que o conhecimento holístico do doente marcará a minha abordagem e a “relação futura deste com o tabaco”. No que se refere ao processo de cessação é fundamental ir antecipando as dificuldades, num processo individualizado, para que os utentes criem estratégias de as ultrapassar. Este é sem dúvida o trabalho mais moroso da consulta, acarretando um trabalho mútuo do profissional e utente que está a iniciar um caminho livre de fumo. A disponibilidade de horário pós laboral conseguiu suprir as necessidades da maioria dos utentes convocados pela equipa que constituí. Os doentes que não tinham disponibilidade foram orientados para a “dupla de profissionais” que disponibilizava um período em horário laboral. As principais dificuldades advieram da falta de motivação de alguns dos utentes referenciados e o absentismo, aspetos que considero estarem relacionados. Cerca de 40,74% dos utentes abandonaram a consulta (3 primeiras consultas e 8 subsequentes). Utentes em fase de pré-contemplação e contemplação deverão ter seguimento pelo seu Médico de Família, sendo importante que este trabalhe a motivação, e numa fase em que haja de facto vontade para deixar de fumar serem novamente referenciados.

De acordo com o Programa de atuação tipo para a Cessação Tabágica, a abordagem do tabagismo requer uma combinação integrada de múltiplas estratégias. Após os 6 meses de implementação da consulta saliento que a experiência tem sido enriquecedora, com a finalidade de acrescer mais anos e qualidade de vida aos utentes que acompanho. A plataforma Google foi uma mais valia para a articulação dos profissionais com a equipa CAICT, funcionando como excelente intermediário e garantindo a confidencialidade de dados. A avaliação da motivação dos utentes referenciados será o elemento prioritário a trabalhar com os profissionais de saúde do ACES de modo a garantir uma maior eficiência da CAICT.

 

 

 

Bibliografia

Direção-Geral da Saúde. Relatório do Programa Nacional para Prevenção e Controlo do Tabagismo 2017

Direção Geral da Saúde. Circular Normativa - Programa tipo de atuação em cessação tabágica nº 26/DSPPS, de 28.12.2007.

Ministério da Saúde (2018), Retrato da Saúde, Portugal.

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Editorial | Jornal Médico
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