Jornal Médico Grande Público

Barreiras transculturais: quando um “detalhe” faz toda a diferença
DATA
09/08/2019 10:47:36
AUTOR
Roberto Rodrigues e Tânia Mendes Serrão
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Barreiras transculturais: quando um “detalhe” faz toda a diferença

A cultura é um sistema de crenças, valores, regras e tradições que é partilhado por um grupo de pessoas e é usado para interpretar experiências e orientar padrões de comportamento.

Num mundo cada vez mais globalizado, a transculturalidade da medicina é uma verdade de La Palisse que merece reflexão. É indiscutível que o contexto sociocultural dos indivíduos influencia as perspetivas, valores, crenças e expetativas no que respeita à saúde. A falha no reconhecimento e na compreensão das diferenças socioculturais pode resultar na prestação de cuidados de menor qualidade e em equívocos que influenciam a comunicação e a tomada de decisão, que poderão ter impacto significativo nos resultados clínicos.

Foi com esta reflexão «A medicina é cada vez mais transcultural» que começamos a discussão do caso de Joana (nome fictício), uma utente natural do Paquistão que recorreu a uma consulta de recurso de saúde materna. A discussão do caso teria sido breve, não tivesse sido a consulta de Joana uma oportunidade para rever o curso da sua gravidez prévia.

O seguimento da sua primeira gravidez começou às 14 semanas de gestação. Joana não falava português e o inglês que falava e compreendia era muito limitado. Em todas as consultas fazia questão de que o médico interno não estivesse presente durante a realização do exame objetivo. Perdeu-se-lhe o rasto quando, após o diagnóstico de diabetes gestacional, foi referenciada para a consulta hospitalar de grávidas de risco. Retrospetivamente, constatou-se que frequentou apenas uma consulta hospitalar em todo o curso da gravidez. O parto foi por cesariana devido a sofrimento fetal grave, consequência de uma diabetes gestacional não tratada (Apgar 3/7/9 aos 1’/5’/10’). Perante a tentativa de esclarecer os motivos pelos quais deixou de frequentar a consulta hospitalar, Joana remetia-se ao silêncio.

A potencial dissonância sociocultural na relação médico-utente poderá ser minimizada com uma abordagem centrada no doente que envolva os seguintes aspetos: (1) a avaliação de questões transculturais fundamentais (estilos de comunicação, confiança, dinâmica familiar, tradição/costumes/espiritualidade, aspetos relacionados com o género/sexualidade), (2) a exploração do significado da doença, (3) a determinação do contexto social e (4) o estabelecimento de negociação.

No caso da Joana, falhamos na valorização de um aspeto transcultural fundamental: a importância, para ela, do sexo do profissional de saúde que a avaliava. Os indícios de que não estava à vontade com profissionais do sexo masculino estiveram presentes desde início, apesar de nunca o ter expressado verbalmente. Por infortúnio do destino, a primeira consulta hospitalar da gravidez prévia foi realizada por um (e não por uma) obstetra.

Em diversas regiões do mundo, incluindo o Médio Oriente, Sul da Ásia e África, os papéis do género/sexo são estritamente definidos. As diferenças culturais em atitudes relacionadas com a sexualidade e com o papel do género são determinantes e podem condicionar dificuldades na realização do exame objetivo. Por isso, devem ser sempre negociadas e consideradas na prática clínica, especialmente perante utentes mais tradicionais e conservadores, por forma a manter uma relação terapêutica de confiança.

No segunda gestação de Joana, o simples gesto de pedir explicitamente na referenciação que fosse acompanhada por um obstetra do sexo feminino fez toda a diferença no sentido de melhorar o resultado clínico de uma gravidez de risco. Joana está com 30 semanas e ainda não faltou a nenhuma consulta hospitalar.

O caso de Joana serve como ponto de partida para muitas reflexões. Se Joana só tivesse contactado com médicos do sexo feminino nos Cuidados de Saúde Primários, talvez nunca se tivesse esclarecido o motivo pelo qual não frequentava as consultas hospitalares.

 

 

Bibliografia: Cross-cultural care and communication. UpToDate. Data da pesquisa: 10/04/2019

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
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“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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