Jornal Médico Grande Público

Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono – O papel do Médico de Família

A Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) afeta preferencialmente indivíduos do sexo masculino, pela quinta década de vida e com excesso de peso, estimando-se que a prevalência de SAOS em homens adultos varie entre 1 e 5%, sendo que a prevalência da doença varia entre 0,3 e 5%.

A importância clínica do reconhecimento e diagnóstico precoce desta patologia reveste-se sobretudo das implicações cardiovasculares e neuropsicológicas que a mesma apresenta.

Sendo assim, perante a suspeita de SAOS, e na impossibilidade da polissonografia ser realizada ao nível dos cuidados de saúde primários (CSP), o Médico de Família referencia o utente para a consulta de Pneumologia a nível hospitalar, onde o diagnóstico é confirmado. É posteriormente iniciada terapêutica, na grande maioria dos casos a ventiloterapia. Após ser verificada a adesão e eficácia terapêutica (em parceria com a empresa de Cuidados Respiratórios Domiciliários - CRD), e havendo estabilidade clínica, o doente é referenciado de volta para o seu médico assistente.

A nível dos CSP deverá ocorrer pelo menos uma consulta anual de seguimento presencial com monitorização clínica e, se necessário, uma segunda consulta que poderá ser não presencial, para efeitos de continuidade de prescrição do tratamento. Estas consultas deverão ser suportadas por relatório emitido pela empresa fornecedora de CRD, onde seja possível perceber a adesão e eficácia terapêuticas, através da percentagem de noites em que a ventiloterapia foi utilizada (>70% das noites), o número de horas por noite (>4 horas por noite) e ainda o Índice Apneia/Hipopneia (<5/hora).

No entanto o que se verifica na prática, e relatando a minha experiência, é que os utentes fazem apenas o pedido de renovação da prescrição da ventiloterapia, sem previamente pedirem à empresa dos CRD a emissão do relatório que comprove a adesão e eficácia da terapêutica, para que possa ser entregue aos seus Médicos da Família. O que se tem verificado em grande parte das situações, é que a renovação acaba por ser feita, muitas vezes sem haver um contacto com o doente, e sem se saber se a terapêutica está a ser utilizada e se é eficaz.

É assim importante que, tanto os colegas hospitalares no momento da alta, como os Médicos de Família, junto dos doentes, expliquem a necessidade e importância de trazer esta informação junto do seu médico assistente. De outra forma não se poderá garantir que aquele

doente esteja adequadamente tratado, podendo inclusivamente necessitar de nova referenciação aos cuidados hospitalares, caso isso não se verifique.

Apesar da grande carga de trabalho a que os Médicos de Família são sujeitos diariamente, vale a pena insistir na informação e educação em saúde junto dos utentes, responsabilizando-os também, de forma a que se sintam envolvidos no plano terapêutico. Assim, saem ambas as partes beneficiadas, sendo que o maior ganho – o qual deve ser sempre o nosso foco – é a prestação do melhor cuidado ao doente.

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

Seguimento nos Cuidados de Saúde Primários de doentes com Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono sob terapêutica com pressão positiva contínua, Norma de Orientação Clínica da DGS 022/2014, atualizada a 28/11/2016.

Rodrigues A., Pinto P., Nunes B., Bárbara C., Prevalência da Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono: um estudo da rede Médicos-Sentinela, 2015, Boletim Epidemiológico, Instituo Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.

Kingman P. Strohl, Overview of obstructive sleep apnea in adults, UpToDate, 2019.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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