Jornal Médico Grande Público

Medicina Geral, Familiar e Social
DATA
30/08/2019 11:03:45
AUTOR
Nuno Parente
ETIQUETAS


Medicina Geral, Familiar e Social

O termo "medicina social" foi (d)escrito pela primeira vez em 1848, decorria a revolução francesa. Atualmente, encarrega-se do papel das condições económica e social na determinação da saúde e na investigação destas relações.

De facto, estamos diante uma medicina cada vez mais social. A demografia desequilibrada, o desemprego e a pobreza vão caminhando hirtos na desgraça e levam à (des)actualização constante de conhecimentos sobre segurança social. A dificuldade na abordagem destes problemas pelo médico de família (MF), o fraco investimento na saúde (9.1% do PIB), abaixo da média europeia, a crescente insatisfação profissional e a desinformação do doente misturaram-se num cocktail de problemática digestão.

A lente do MF, neste ambiente de destruição do serviço nacional de saúde, é cada vez mais opaca aos problemas do doente e deixou de transparecer a preocupação antiga e o acompanhamento leal da família. As desigualdades sociais apoderaram-se do seu quotidiano. Contudo, é importante referir que, ainda assim, o MF reflecte a atenção primária em apectos predominantemente biomédicos, denotando-se que questões sociais são mais abordadas em consultas de seguimento. Isto foi comprovado num estudo dinamarquês em que, numa amostra de 5543 doentes, a codificação de problemas sociais correspondeu a 0.5%.1 E no que respeita aos idosos, a identificação de situações de solidão e pobreza de relações sociais, mesmo na presença de depressão e ansiedade, que potencialmente aumentam o número de visitas médicas, não é eficiente.2

Portanto, o MF como actor principal no acesso aos cuidados de saúde estará a falhar no rastreio de problemas de índole social. Poderá, então, haver lugar à desvalorização? Sabe-se que o estrato socioeconómico (ESE) pode ditar menos 6 anos de esperança média de vida e relacionar-se a um futuro de obesidade, asma, rinite alérgica, atraso psicomotor e perturbação da hiperactiviadade e défice de atenção.3 Alíás, a própria relação médico-doente pode ser afectada socialmente.

Enquanto os os indivíduos de ESE baixo auto-reportam "pior saúde", os médicos percepcionam-os como tendencialmente menos inteligentes, independentes, responsáveis, racionais e acreditam deterem menor adesão terapêutica neste grupo.4 O discurso é mais directivo e menos participativo e informativo.

Consequentemente pode haver um atraso no pedido de exames complementares de diagnóstico e evitação na referenciação para cuidados hospitalares. Ora, o reconhecimento deste "tratamento inferior" pelo doente entorpece a interação e pode quebrar a confiança nesta aliança.4

Deste modo, é fundamental fomentarmos a nossa auto e hetero-consciência social. Invariavelmente teremos um crescimento gradual e modesto do custo imputado à saúde geriátrica (2.8% até 2060), maior necessidade de cuidados de longo termo e manutenção do trabalho pago e não pago após idade da reforma.5 Em Portugal, em 2014, o pagamento dos cuidados informais prestados pela população com mais de 55 anos teria resultado num aumento de 13% na taxa de emprego.5 É também preciso capacitar o assistente social.

O trabalho isolado, por vezes, sem espaço físico, o papel indefinido, a sobre-sub-utilização da sua competência e sub-representação são barreiras a ultrapassar. É trabalho polivalente, sobrecarregado e sem tempo para educação na prevenção de risco.

A maior formação do MF nesta área e a optimização da referenciação dos casos prioritários são elementos centrais nesta conjectura. A desconstrução social tem como epicentro contíguo o MF e lá terá ele de auxiliar na nova "moda" do atestado de deficiência do filho; a tratar do relatório médico da mãe, operária fabril em condições de trabalho desumanas, para entregar na junta médica; a avaliar a (in)capacidade de condução do avô de quase 90 anos e a reunir a informação clínica da avó para ingresso no lar. Situações de bastidores despercebidas ao olhares de muitos, que ouvem ruídos de reclamação e lá vão sendo resolvidas, de uma maneira ou de outra.

 

 

 

1. Rosendal M, Vedsted P, Christensen KS, Moth G. Psychological and social problems in primary care patients - general practitioners’ assessment and classification. Scand J Prim Health Care. 2013;31:43–49

2. Due TD et al. How well do general practitioners know their elderly patients’ social relations and feelings of loneliness? BMC Fam Pract. 2018; 19: 34;

3. Fiscella, K, Williams, DR.  Health disparities based on socioeconomic inequalities.  Implications for urban health care.  Academic Med. 2004:79;1139-1147;

4.Arpey NC, Gaglioti AH, Rosenbaum ME. How socioeconomic status affects patient perceptions of health care: a qualitative study. J Prim Care Community Health. 2017;8(3):169–175;

5. Cylus J et al. Will population ageing spell the end of the welfare state? A review of evidence and policy options. WHO Regional Office for Europe, Denmark. 2018.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas