Referenciar a Nefrologia: A dúvida persiste, o desafio impõe-se

A doença renal afeta atualmente milhões de pessoas em todo o mundo, estimando-se que comprometa cerca de 10% da população, transversal às várias faixas etárias. Esta dimensão torna primordial a consciencialização para a mesma, impondo-se cada vez mais a necessidade de uma orientação assertiva e no timing adequado.

É do senso geral da comunidade médica que a avaliação do doente nefrológico implica três pilares essenciais: anamnese e exame objetivo, exames laboratoriais (de sangue e urina) e estudo de imagem (ecografia renal). O histórico analítico do doente tem-se revelado também uma ferramenta útil ao esclarecer sobre a data de início da lesão renal, a sua duração e perfil evolutivo. Com base nestes dados, torna-se possível classificar a lesão renal em aguda (LRA), rapidamente progressiva (IRRP) ou crónica (DRC) e deste modo decidir sobre a necessidade de referenciação do doente ao Serviço de Urgência (SU) ou à Consulta Externa (CE) de Nefrologia.

O principal objetivo da referenciação do doente ao SU desta especialidade consiste em diagnosticar e tratar atempadamente uma LRA/ IRRP potencialmente reversível ou que necessite de suporte dialítico agudo. Entre as causas mais comuns salientam-se os estados sustentados de depleção de volume e a iatrogenia farmacológica, situações rotineiramente observadas na prática diária e para as quais importa estar alerta. A referenciação urgente impõe-se também nos casos de DRC com agudização de etiologia não conhecida, cujo conhecimento se preveja decisivo no tratamento e prognóstico finais.

Sendo a DRC um dos mais atuais problemas de saúde, e não havendo dúvidas quanto à sua afirmação como fator de risco cardiovascular independente, nos dias de hoje a referenciação à CE de Nefrologia visa a orientação de um grande número de doentes portadores desta entidade. Os principais objetivos da orientação para esta consulta consistem em promover um tratamento específico adequado, atrasar a progressão da DRC (identificando, prevenindo e tratando complicações específicas da doença renal), planear atempadamente o início de diálise e providenciar tratamento médico conservador ou opção de cuidados paliativos se necessário. Ressalva-se o caso particular de doentes idosos que apresentam valores estáveis de creatinina sérica entre 1.40 e 1.60mg/dl, equivalente em alguns casos a taxa de filtração glomerular (TFG) inferior a 30ml/min/1.73m2. Além das atuais fórmulas de cálculo da TFG não estarem cientificamente validadas para esta faixa etária, importa relembrar que decorrente do normal envelhecimento humano ocorre uma perda progressiva de função renal. Assim, doentes com valores similares, na maioria das vezes, não carecem de investigação etiológica acrescida, nem beneficiam de seguimento regular em consulta hospitalar da especialidade. Excetuam-se, contudo, os casos com agravamento de novo da função renal ou presença concomitante de sedimento urinário ativo e/ou proteinúria igual ou superior a 1.0g/dia, os quais deverão ser prontamente encaminhados. Entre outras indicações para referenciação à CE pode também citar-se: a poliquistose renal ou suspeita de outra alteração hereditária, as doenças sistémicas com atingimento renal e a hipertensão arterial de possível causa renal.

Todavia, admite-se que a referenciação de doentes com patologia renal é muitas vezes uma decisão complexa e que, apesar da existência de critérios, podem persistir dúvidas. Neste contexto, e no sentido de uma maior adequação de cuidados, apela-se à máxima articulação e sinergia entre médicos de família e nefrologistas, deixando-se o desafio e assumindo-se essencial e crescente a pertinência do mesmo.

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Editorial | Jornal Médico
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