Contraceção intrauterina: o método dos outros?
DATA
27/09/2019 11:04:11
AUTOR
Marta Mendes Ferreira
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Contraceção intrauterina: o método dos outros?

As opções e escolhas contracetivas da mulher variam ao longo do seu ciclo reprodutivo. Sabe-se, também, que a escolha do método contracetivo pela utilizadora garante uma maior adesão e continuidade na utilização de contraceção.

Em 2012, registaram-se 85 milhões de gravidezes não planeadas (50% resultaram de falha contracetiva ou adesão imperfeita ao método)1. Este número perfaz 40% das gravidezes de todo o mundo tendo, metade destas, terminado em interrupção voluntária da gravidez1.

Existe uma diversidade de métodos contracetivos disponíveis nos Cuidados de Saúde Primários, falta saber onde estaremos nós a falhar? Quando analisadas as taxas de eficácia dos vários métodos verifica-se uma taxa de eficácia da contraceção intrauterina (CIU) semelhante à taxa de eficácica da esterilização feminina (taxas de falha no primeiro ano de utilização típica 0,2% (SIU-LNG) e 0,8% (DIU-Cu)2. Além disso, as eficácias para utilização perfeita e utilização típica de CIU são praticamente idênticas, refletindo requisitos mínimos para a adesão pela utilizadora. Já a contraceção oral combinada, tão utilizada em Portugal, apresenta taxas de falha de utilização no primeiro ano de utilização típica de 8%2.

As vantagens da CIU são variadas: longa duração sem necessidade de administração diária, semanal ou mensal; rapidamente reversível; a eficácia do método não depende da adesão da utilizadora; método seguro e com poucos efeitos indesejáveis. Já as contra-indicações à sua colocação são poucas comparativamente a outros métodos contracetivos.

Assim sendo, qual a razão para termos valores tão baixos de CIU? Segundo a Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG) e a Sociedade Portuguesa da Contracepção (SPDC), em 2015, na região norte, a taxa de utilização de DIU/SIU era de 11,5% (vs 69,8% para os contracetivos orais).

 Vários são os motivos enumerados para esta discordância. De entre eles, destaco a falta de confiança na inserção que resulta do défice de formação prática disponível que se traduz numa diminuição do número de profissionais disponíveis para a colocação de CIU; a falta de informação dos profissionais sobre a segurança: perfuração é um evento raro que ocorre em ~1:1000; a ideia de não ser adequada a certos grupos de mulheres como nulíparas, solteiras ou não monogâmicas; a “falsa crença” de se tratar de um método abortivo3.

Apesar de todos estes motivos, considero que o mais importante é a falta de sensibilização e de capacitação das utentes por parte dos profissionais de saúde. Vários estudos apontam para o facto de que quando é fornecida às mulheres informação completa sobre contraceção reversível, uma grande parte escolhe métodos de longa duração, onde se inclui a CIU. Quantos de nós, na consulta de revisão de puerpério disponibiliza ou dá a conhecer outros métodos contracetivos além da contraceção oral com progestativos? Provavelmente poucos. Por vários motivos. Um deles é o facto de não exigir uma série de procedimentos que nos obrigam a agendar nova consulta para a colocação de um DIU/SIU.

A disponibilização de métodos contracetivos que respondam às necessidades específicas de cada mulher na sua diversidade e características individuais constitui um importante mecanismo de melhoria dos cuidados de saúde sexual e reprodutiva prestados. Considerando que a taxa de eficácia da CIU se equipara à de um método definitivo, esta é sem dúvida uma área que merece a nossa atenção e dedicação.

 

 

 

Bibliografia:

  1. Sedgh, G., Singh, S., & Hussain, R. (2014). Intended and Unintended Pregnancies Worldwide in 2012 and Recent Trends. Studies in Family Planning, 45(3), 301–314
  2. Consenso sobre contraceção, Sociedade Portuguesa de Ginecologia, 2011
  3. Black, K., Lotke, P., Buhling, K. J., & Zite, N. B. (2012). A review of barriers and myths preventing the more widespread use of intrauterine contraception in nulliparous women. The European Journal of Contraception & Reproductive Health Care, 17(5), 340–348
Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos
Editorial | Jornal Médico
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