Celebrar a vida, celebrar 40 anos de SNS
DATA
03/10/2019 12:00:44
AUTOR
Rui Cernadas
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Celebrar a vida, celebrar 40 anos de SNS

Os mais recentes dados evidenciam que, em todo o mundo, mais de quatro milhões de pessoas infectadas pelo VIH têm mais de 50 anos de idade. E mais de 25% do total terá mesmo mais de 70 ou mais anos de idade.

Portugal apresenta ainda das mais elevadas taxas de novos casos de VIH e SIDA no espaço europeu, mas realmente, entre 2005 e 2014, terá registado uma quebra de 50% no número de novos casos de infecção por VIH e de 70% no de novos casos de SIDA.

Longe vão os tempos em que a SIDA era uma doença aguda fatal. Transformou-se numa doença crónica de mortalidade muito reduzida.

Cumpriu-se o critério transversal de uma certa revolução epidemiológica, na qual aumentam os sobreviventes de inúmeras patologias, sob um risco acrescido e mal avaliado ainda de comorbilidades que, vão obrigar a profundas alterações assistenciais.

O paradigma dos cuidados hospitalares está em mudança acelerada e os decisores não o entendem. Verdade seja dita que, também os médicos parecem estar alheios a esta realidade...

O ponto lógico para tratar as doenças crónicas em contexto de multi-morbilidade encontra-se nos cuidados primários de saúde (CPS).

O cenário para a promoção da prevenção dos riscos de saúde são os CPS.

O crescendo de incidência de doença e de diagnóstico precoce são os CPS.

O exemplo das pessoas infectadas por VIH é disso flagrante e falta preparar os profissionais dos CSP e especializá-los na gestão das doenças crónicas, as velhas e as novas, bem como organizar o modelo assistencial dos CSP para esse desiderato de uma nova exigência.

O impacto desta gestão não pode alocar-se aos hospitais. As cargas de doenças – cardiovascular, neurocognitivas, diabética, hepática, osteoporótica e reumatismal – torná-lo-iam impossível!

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) celebra 40 anos.

Mantendo-se como uma das principais conquistas após o 25 de Abril, os Portugueses não distinguem o direito constitucional à saúde do próprio SNS.

Mas, percebem que o SNS se afunda rapidamente e o dinheiro, a falta de recursos humanos, equipamentos e de investimentos, não é, não são os únicos argumentos e razões: falta estratégia a prazo e capacidade de antecipação.

É por isso que falta definir uma nova missão para os CSP.

O que deveria significar, finalmente, o envolvimento da sociedade e a pedagogia para uma discussão aberta sobre que decisões tomar para o país em matérias de promoção de saúde. Deveria ser a primeira medida para a defesa do SNS e para uma verdadeira reforma clínica e conceptual dos serviços assistenciais em Portugal.

O peso epidemiológico e financeiro da doença crónica é e vai ser esmagador, num contexto demográfico tremendamente desfavorável para Portugal.

Há que compreender que não faria qualquer sentido e seria um total desperdício termos unidades de CSP a tratar idosos inscritos com polipatologia crónica e os hospitais a tratar outros tantos, com doenças similares, apenas porque fizeram ou fazem terapêuticas antirretrovirais ou biotecnológicas, por exemplo.

O destino irá ser, a qualquer preço, a intervenção dos CSP de forma continuada e a referenciação, pontual ou periódica, aos hospitais para a monitorização ou esclarecimento sobre follow-up.

Como dizia atrás, é tempo de celebrar os 40 anos do SNS.

E que melhor forma de o festejar senão através do envolvimento da sociedade e da pedagogia para uma discussão reflectida sobre que, decisões tomar para o país, em matérias de promoção de saúde e sustentabilidade para o futuro!

2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos
Editorial | Rui Nogueira
2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos

Este ano está quase a terminar e uma nova década vai chegar. O habitual?! Veremos! Na saúde temos uma viragem em curso e tal como há 40 anos, quando foi fundado o Serviço Nacional de Saúde (SNS), há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções.

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