A pressa foi sempre inimiga da perfeição
DATA
03/10/2019 12:06:27
AUTOR
Vitor Virgínia
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A pressa foi sempre inimiga da perfeição

Em 2019, voltamos a um momento de escolhas que vai definir o rumo imediato do País nos próximos quatro anos e que pode traçar linhas gerais para um futuro ainda mais alargado. São sempre alturas de entusiasmo. Que podem marcar as nossas vidas e as das gerações vindouras.

Quando há quarenta anos foi instituído o Serviço Nacional de Saúde (SNS) provavelmente estaríamos longe de imaginar o impacto desta medida visionária. O SNS estabeleceu um novo padrão de prestação de cuidados de saúde que beneficiou a população e que teve um impacto transversal. Saúde é tudo. E é esta incontestada presença da saúde e da sua abrangência no bem-estar, na economia, em todas as políticas, que a torna fácil objeto de discussão e debate, aliás, como temos assistido nos meses mais recentes. Nem sempre uma discussão totalmente esclarecida, sejamos honestos.

Como responsável de uma companhia farmacêutica que vai comemorar cinco décadas de presença em Portugal em 2020, integrada num sector que tem aportado inequívoco valor social, humano e económico à sociedade portuguesa, vejo com alguma preocupação sinais que parecem indiciar certa desvalorização do valor da inovação na saúde e não só.

A chama que tem consumido intensas discussões sobre o papel do setor privado no SNS, por exemplo, comporta algum preconceito pela importância que este tem na melhoria do acesso e da saúde dos portugueses. Noto este preconceito muito latente em alguns setores da sociedade, e tenho esta convicção fundada em vivências, interações e experiências onde observo a forma como a indústria farmacêutica ainda é encarada por vários intervenientes.

Num recente estudo promovido pela Apifarma apostamos na robustez e na confiança que os números nos transmitem para deixar algumas análises interessantes. Como a que nos diz que, em 2016, a indústria farmacêutica contribuiu para o crescimento global do PIB, num valor total superior aos quatro mil milhões de euros, verba suficiente para cobrir, por exemplo, o orçamento para a Ciência, Educação e Tecnologia. Criámos, como sector, desde 1990, cerca de 10 mil empregos diretamente por empresas farmacêuticas e 40 mil na indústria farmacêutica mais alargada. Numa vertente mais social, estimamos que o rendimento anual gerado pelas famílias – resultante da capacidade de produzir que lhes foi permitida pelos tratamentos que foram surgindo nas diversas áreas de análise (ex. VIH/SIDA; diabetes, cancro do pulmão, ...) – se fixou na ordem dos 280 milhões de euros. E quando se fala na periclitante situação financeira do nosso SNS, o estudo revela também que o impacto da inovação nas doenças em análise no estudo se estabeleceu nos 560 milhões de euros anuais de poupança para o sistema de saúde[i].

Mas, o impacto humano é aquele que mais me orgulha como profissional que tem desenvolvido o seu percurso na MSD, empresa na vanguarda da inovação, há três décadas. As empresas da indústria farmacêutica evitaram, com o impulso do seu entusiasmo científico, mais de 110 mil mortes e aumentaram a esperança de vida até 10 anos, desde 1990, em Portugal. Em dez anos, transforma-se o mundo, abrem-se novas perspetivas e lógicas de integração e união. Dez anos representam um valor incalculável, porque obviamente subjetivo, de relações afetivas, sucessos pessoais, metas conquistadas. É uma vitória que a ciência, impulsionada pela indústria de inovação farmacêutica, trouxe. Uma marca inegável que nos parece ser uma nota daquelas que ultrapassam o rodapé.

A inovação não deve ser encarada como um fardo

O reconhecimento de que a inovação farmacêutica está num bom momento de forma deve ser algo que nos deve alegrar. A transformação no paradigma de algumas doenças que estiveram e/ou estão na lista de prioridades das políticas de saúde pública dos Estados, fruto da revolução nos tratamentos e na prevenção, constitui um salto civilizacional importante.

Obviamente, percebemos a perspetiva dos Estados e a necessária gestão da entrada destas novas moléculas. O acesso à inovação é algo que todos os interlocutores desejam. E como tal, tem de haver disponibilidade para chegarmos a um ponto de encontro, que continue a incentivar o esforço de investigação das companhias farmacêuticas, mas que permita aos Estados uma boa gestão dos dinheiros públicos. Têm sido gerados esforços no sentido de promover uma avaliação prévia e contínua – após a introdução de um medicamento no mercado – para continuarmos a perceber a real efetividade de um medicamento.

Nesta linha de abertura para o diálogo não podemos concordar com medidas extemporâneas, que parecem surgir em final de ciclo, e que visam colocar o custo como único fator que deve prevalecer na avaliação de uma tecnologia em saúde. Esta decisão enfraquece a própria autoridade pública no sentido em que sinaliza para os cidadãos um processo de escolha que parece não olhar para critérios que possam melhorar a sua produtividade e qualidade de vida. A pressa, neste caso na tomada de decisões, foi sempre inimiga da perfeição.

Somos pelo diálogo, pela conciliação, pela busca de consensos, pela construção respeitando os outros e exigindo para nós reciprocidade de tratamento. Defendemos a ética nos negócios, a transparência nas ações, a cooperação e o respeito institucional que todos nós, elementos de um sistema de saúde integrador, devemos merecer.

A MSD vai continuar a encarar a sua relação com as autoridades de saúde e com todos os seus parceiros de uma forma simples, que nos parece um adequado ponto de partida para qualquer conclusão que queiramos atingir: estamos abertos a um diálogo, a uma negociação, em que no fim todas as partes se possam sentir confortáveis com a decisão tomada. Acreditamos que esta quase paralela coexistência das cinco décadas de presença da MSD em Portugal com as quatro décadas do SNS são mais do que uma feliz coincidência. É, pois, com orgulho e reiterado contributo que a MSD se sente parceira nesta conquista do País.

Uma nota sobre as 100 edições do Jornal Médico

A MSD junta-se a esta edição comemorativa do Jornal Médico com entusiasmo. Meio de referência na comunicação especializada em saúde, o Jornal Médico tem acompanhado diferentes histórias e interlocutores que percorrem a Saúde em português. Temos sido um parceiro constante deste meio que tem desempenhado uma função de informação muito relevante e reconhecida pela forma como consegue mobilizar as vozes que decidem saúde em Portugal. Esta centésima edição exponencia um trabalho que tem desenvolvido de auscultação e medição das tendências, discussões, polémicas e conquistas que têm emergido nesta área social crítica para o nosso presente e futuro. Parabéns ao Jornal Médico. Que continuem a medir o pulso à Saúde em Portugal por muito mais tempo. 

 

Relatório Apifarma – perspectiva holística sobre o valor dos medicamentos em Portugal, Outubro de 2018. Disponível em: https://www.apifarma.pt/publicacoes/siteestudos/Documents/Estudo_Valor_Medicamento_Portugal_25.10.2018.pdf

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