Resolver problemas
DATA
03/10/2019 12:25:34
AUTOR
Paulo Cleto Duarte
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Resolver problemas

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi uma “teimosia” de António Arnaut, um menino simples, nascido e criado na Cumieira, que se tornou advogado e deputado. Em janeiro de 2016, numa entrevista à revista Farmácia Portuguesa, o próprio explicou essa obstinação com o imperativo ético de resolver os problemas reais das pessoas: “É preciso conhecer a realidade do país e é preciso querer mudá-la. Na minha aldeia morriam pessoas porque não tinham dinheiro para procurar um médico. Conhecendo a realidade do país, através do espelho social que era a minha aldeia, tendo eu sensibilidade e desde sempre sido um rebelde contra as injustiças sociais, tinha de fazer o que pudesse”.

Quarenta anos depois, o SNS é frequentemente apontado como a melhor obra da nossa Democracia. Não faltam factos, nem testemunhas disso.

Antes do SNS, por cada mil nascimentos morria uma mãe e morriam 56 bebés antes do primeiro aniversário.  O SNS ofereceu-nos, em média, 14 anos de vida. Os programas portugueses de vacinação, formação médica, troca de seringas e transplantação são referências internacionais. Os profissionais de saúde portugueses emigram facilmente porque são apreciados e respeitados nos países mais ricos. Com mais de três farmacêuticos por farmácia, também a rede portuguesa de farmácias, que aqui tenho a honra de representar, é uma das cinco mais qualificadas do mundo.

Só por insuportável ingratidão poderemos, algum dia, esquecer estes factos.

Sucede, no entanto, que a Saúde Pública é um combate permanente. Portugal comprometeu-se com a ONU a erradicar o contágio pelos vírus da sida e hepatites até 2030, mas ainda há milhares de portadores destas doenças por diagnosticar. Mais de um milhão de portugueses são diabéticos. Há outros dois milhões em risco, ou que já têm diabetes sem o saberem. Apesar dos esforços das autoridades de saúde, ainda há grávidas a falhar vacinas. O sarampo e outras doenças estão a regressar. Muitas crianças fazem uma alimentação errada e milhares de jovens têm comportamentos sexuais de risco.

Só por insuportável cegueira podemos aceitar a degradação da resposta do SNS aos problemas reais das pessoas.

Na Saúde, está a faltar-nos tudo. Faltam profissionais, falta financiamento, falta planificação, faltam equipamentos, faltam obras de manutenção, faltam meios de diagnóstico, faltam medicamentos.

O local de nascimento juntou-se à condição económica como fator de desigualdade no acesso à saúde.  Uma auditoria do Tribunal de Contas denuncia “marcadas assimetrias regionais no acesso a consultas hospitalares e cirurgias, e nos tempos de espera associados, que traduzem desigualdades no acesso a cuidados no SNS”. O Programa do Governo previa o direito dos doentes com VIH-sida e doenças oncológicas a poderem optar por ser seguidos nas suas farmácias comunitárias. Na realidade, continuam a ser forçados a perder dias inteiros, em viagens pelo país, para irem levantar esses medicamentos aos hospitais.

O SNS está a falhar à população mais idosa, mais doente e mais pobre.

Não consegue atrair e fixar profissionais no Interior, perdendo todos os anos médicos e enfermeiros qualificados para a emigração. Em Trás-os-Montes, nas Beiras e no Alentejo, os especialistas de Medicina Geral e Familiar andam de terra em terra, como caixeiros-viajantes, para poderem oferecer uma consulta por semana às populações.

As farmácias garantem a existência, em todo o país, de uma rede de profissionais de saúde qualificados.  Ainda há uma farmácia próxima de cada português, mesmo nas terras onde fechou a extensão do centro de saúde, a escola, o tribunal e outros serviços públicos.

António Arnaut atribuía às farmácias o importante papel de “mão longa do SNS”. Assumimos, com responsabilidade, essa missão.

Podemos aproximar o SNS dos cidadãos, mas atenção: sozinhas, as farmácias não conseguem responder às necessidades em saúde das populações mais frágeis e isoladas. Se tudo continuar como está, acabarão condenadas.

Nos próximos anos, espero ver a funcionar canais de comunicação entre os médicos e as farmácias, para encontrar alternativas seguras quando falta um medicamento ou encontrar a consulta de especialidade certa para cada problema.

Nos próximos anos, espero ver esta rede a prestar serviços qualificados à população, garantindo continuidade de cuidados e boa vigilância às necessidades em saúde, em particular dos doentes crónicos.

Nos próximos anos, espero que o SNS encontre no seu fundador a inspiração para se focar outra vez na solução dos problemas reais das pessoas.

Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos
Editorial | Jornal Médico
Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos

Reler as origens do Serviço Nacional de Saúde ajuda a valorizar o presente e pode ser uma forma de aprender para investir no futuro com melhor fundamentação

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