A (r)evolução tecnológica em Medicina – o exemplo da consumer sleep technology

A tecnologia faz parte de cada momento da nossa vida, está presente desde o despertar, em todas as divisões da casa, no carro, no trabalho e também nos tempos de lazer. A revolução tecnológica das últimas (poucas) décadas apresentou um crescimento exponencial em inúmeras áreas do conhecimento, incluindo a Medicina.

Estas novidades tecnológicas (apps, smartphones, tablets, wearables, trackers e outros gadgets) estão disponíveis para aquisição por qualquer pessoa. Quer queiramos quer não, os dispositivos eletrónicos vieram para ficar e já se tornaram indispensáveis para muitos de nós, acompanhando-nos 24 horas por dia.

Vejamos o exemplo do sono. Passamos um terço das nossas vidas a dormir. O sono não só é essencial à vida como é de grande importância para o nosso bem-estar e saúde. Também sabemos que as rotinas da hora de deitar estão a mudar e que muitas pessoas se deitam com um smartphone ou tablet em vez de um livro ou revista. De acordo com a National Sleep Foundation, pelo menos 90% da população nos EUA utiliza tecnologia na hora antes de se deitar e todos nós já ouvimos falar sobre os malefícios destas novas práticas para o nosso sono e desempenho.

Mas podem estas novas tecnologias ser benéficas? Trarão soluções?

A indústria tem respondido a este problema com o desenvolvimento de diversos dispositivos high tech que ajudam as pessoas a dormir mais e melhor. Muitas destas soluções passam por utilizar os smartphones, que a maioria de nós já possui, através dos quais facilmente se adquirem aplicações que permitem uma avaliação e vigilância diária do sono, no ambiente real do consumidor. Além disso, podem ajudar a identificar comportamentos errados e fornecer soluções para os corrigir, contribuindo para a higiene do sono. Além disso, são bases de dados, cada vez mais completas e fiáveis, que poderão ser consultadas pelo médico assistente, ajudando a realçar a importância de um sono de qualidade.

Hoje é possível encontrar no mercado smart beds que vigiam os padrões de sono através de vários parâmetros, como a temperatura corporal e os movimentos do corpo, ajustando a sua forma ao longo da noite para melhorar a qualidade do sono, por exemplo, corrigindo a posição do corpo para parar o ressonar ou modulando a temperatura do colchão, para evitar desconforto. Existem vários objetos que monitorizam o sono, uns que se colocam debaixo do colchão, outros portáteis, em forma de pulseira, e até um capacete que vigia a atividade cerebral e frequência respiratória. Existem também smart pillows (almofadas que detetam o ressonar e corrigem a posição da cabeça), dispositivos de arrefecimento inteligente do colchão, dispositivos com tecnologia de acústica, e mesmo smart lights (lâmpadas com luz de espectro vermelho ou que escurecem ou acendem lentamente, mimetizando o sol).

Ainda estamos a despertar para estes novos desenvolvimentos e existem lacunas relativamente a evidência científica e regulamentação. Como tal, estas inovações podem não ser isentas de riscos, fornecendo informações infundadas sobre comportamentos e estilos de vida e atrasando a procura de um profissional de saúde. Tendo em conta o impacto e mudanças na prática clínica que estas novas tecnologias podem ter, a American Academy of Sleep Medicine formou recentemente o Consumer and Clinical Technology Committee e publicou uma declaração sobre a consumer sleep technology. Mais ainda, a constante procura pela inovação por parte da sociedade em que nos inserimos leva a que, na maioria das vezes, a aquisição destes dispositivos não seja filtrada por uma discussão com o médico assistente. É neste sentido que refletimos sobre o benefício do conhecimento sobre estas potenciais armas terapêuticas para a relação médico-doente e a otimização da saúde e bem-estar dos nossos utentes. Num futuro muito próximo, será tão necessário mantermo-nos atualizados em termos de inovação terapêutica farmacológica como tecnológica.

2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos
Editorial | Rui Nogueira
2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos

Este ano está quase a terminar e uma nova década vai chegar. O habitual?! Veremos! Na saúde temos uma viragem em curso e tal como há 40 anos, quando foi fundado o Serviço Nacional de Saúde (SNS), há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções.

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