Sobre o papel da nutrição no doente oncológico: o ponto de vista de um jovem médico

De um modo muito simplista, o corpo humano possui um sistema extremamente complexo de divisão celular que determina o crescimento de novas células e a morte das células senescentes. Contudo, o organismo não é perfeito e, por vezes, falha. No decurso da interação entre fatores genéticos e ambientais, entre os quais se incluem os fatores nutricionais, a doença oncológica pode surgir.

De acordo com os dados revelados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) no final de 2018, embora Portugal tenha uma das incidências mais reduzidas da União Europeia, os números não deixam de ser inquietantes. Por cada 100 mil portugueses, mais de 490 desenvolveram um tumor. O cancro colorretal foi o tumor com maior incidência no nosso país, tendo sido responsável por mais de 10 mil novos casos de cancro. [Fonte:Globocan 2018]

Nos últimos anos tem-se verificado um aumento no número de novos casos de cancro. Este aumento, em parte, está intimamente relacionado com o aumento da esperança média de vida, bem como com técnicas mais precisas de diagnóstico. Contudo, a estes aspetos somam-se outros fatores, designadamente fatores de risco comportamentais/modificáveis, isto é, causas que, quando evitadas, podem ajudar-nos a prevenir o cancro, entre os quais, estão os hábitos tabágicos e má alimentação.

Claro que nenhum alimento tem, por si só, propriedades capazes de prevenir um tumor. Adotar uma alimentação completa, variada e equilibrada, nomeadamente com a evicção de alimentos processados, com elevada densidade calórica e elevado teor de açúcar e limitação do consumo de sal, pode ter um papel determinante nesta interação dinâmica entre fatores genéticos e ambientais.  

A desnutrição no doente oncológico é uma consequência do aumento de citocinas inflamatórias associadas ao cancro, alterações metabólicas e concomitante inadequada disponibilidade de nutrientes, pela anorexia causada pela doença e tratamentos sistémicos. A desnutrição, aliada à perda de massa muscular, são muito frequentes neste grupo de doentes e têm um efeito negativo no prognóstico.

O que esperar do médico? É uma das perguntas fulcrais nesta temática.

A resposta passa por ter interesse e conhecimento elementar sobre nutrição, rastrear o risco nutricional, se possível, no meio do caos a que uma consulta pode ascender, e, adicionalmente, encaminhar para um nutricionista. A tarefa parece simples, mas torna-se árdua numa realidade com escassez de recursos humanos, e limitações impostas pelo tempo/ plataformas informáticas em constante bloqueio.

A abordagem multimodal precoce pode melhorar a qualidade de vida e a eficácia do tratamento oncológico dirigido. Geralmente, a primeira forma de suporte nutricional deve ser o aconselhamento funcional, que incorpora avaliação dos requisitos de energia e nutrientes, preparação destes e/ou modificação da textura ou conteúdo de nutrientes; aumento da frequência das refeições pela distribuição de alimentos a várias pequenas refeições; enriquecimento com aditivos energéticos e densos de proteína, oferecendo suplementos nutricionais orais e um programa reabilitacional motor personalizado.

Agentes farmacológicos específicos podem ser necessários ou úteis em distúrbios gastrointestinais com impacto na ingestão ou absorção de alimentos ou associados à diminuição do apetite. Isso pode incluir antieméticos, antimicrobianos, analgésicos, corticosteróides, agentes para induzir ou diminuir a produção salivar, inibidores da secreção de ácido gástrico, agentes para manter ou normalizar a motilidade intestinal ou antidepressivos.

Não podemos esquecer que, enquanto médicos, a abordagem da desnutrição deve sempre ser considerada como multidisciplinar, dando prioridade a um entendimento do quadro clínico, controlo nutricional, motor e medicamentoso, além da importante abordagem psicossocial, visando sempre o bem-estar do doente que está a nossa frente.

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