Abuso de tecnologias na infância e impacto no desenvolvimento

Nos últimos anos, o desenvolvimento tecnológico e a transformação nos estilos de vida tem gerado importantes modificações no comportamento das crianças e adolescentes1 – “A tecnologia digital já mudou o mundo, agora, está a mudar a infância” (Unicef, 2017).

Ao contrário do que acontecia em décadas passadas, brincar deixou de ser uma atividade praticada ao ar livre para ser uma atividade praticada quase exclusivamente dentro de casa, com uma enorme quantidade de dispositivos eletrónicos e ecrãs à disposição da criança.1

Segundo o relatório “Situação Mundial da Infância 2017: as crianças no mundo digital” um em cada três utilizadores da Internet em todo o mundo é uma criança.

Se por um lado é possível identificar múltiplos benefícios decorrentes do uso de tecnologias, por outro podem ser identificados inúmeros prejuízos advindos da sua utilização. É exemplo desta realidade, o sedentarismo e o elevado número de horas gasto a assistir a programas de televisão com impacto na redução da qualidade das interações entre pais e filhos, bem como da aprendizagem de habilidades sociais, cognitivas e emocionais por parte destas crianças2. O uso exagerado da tecnologia desconecta as crianças e adolescentes do mundo real, substituindo de forma silenciosa os hábitos tradicionais que envolvem a interação física com as pessoas e o meio ambiente.3

Inevitavelmente, o uso de smartphones e similares pressupõe uma interação máquina-indivíduo que leva a um pior desenvolvimento da linguagem, assim como da criatividade das crianças e adolescentes utilizadores.

Uma exposição diária aos ecrãs superior a 3 horas aumenta significativamente o risco de perturbações de sono e a exposição precoce (antes dos 2 anos de idade) pode aumentar o risco de problemas de atenção.4

Ao contrário, a interação individuo-individuo, o chamado “brincar a sério”, promove a aprendizagem ativa e a aquisição de competências de interação social e emocional. Ainda nesta vertente, a criança ou o adolescente adquirem capacidade de resiliência, sendo-lhe igualmente permitido o desenvolvimento da curiosidade inata e a prática de atividade física como forma de prevenção da obesidade.5

De salientar que a tecnologia, em si, não é um problema. É importante que a criança desenvolva em primeira instância a criatividade e o raciocínio para depois utilizar os dispositivos eletrónicos livremente, sem se tornar dependente da tecnologia.

O médico de família, enquanto prestador de cuidados continuados e longitudinais, desempenha um papel fundamental na abordagem do abuso de tecnologias nesta faixa etária. A confiança e respeito que lhe são atribuídas pelas famílias podem ser usados como importantes ferramentas orientadoras no processo de “desabituação tecnológica”.

Na consulta de Saúde Infantil, os pais, as crianças e adolescentes devem ser informados sistematicamente das necessidades de hábitos saudáveis e dos limites de uso diário dos dispositivos eletrónicos. As atividades ao ar livre partilhadas em família ou com os pares, são excelentes alternativas, promotoras do desenvolvimento psicomotor e mental, capazes de aumentar competências sociais, melhorar a locomoção e motricidade, desenvolver a linguagem e o raciocínio prático.

Em 2016 a American Academy of Pediatrics atualizou as guidelines relativas ao tempo de uso de ecrãs, desaconselhando o seu uso para crianças com menos de 18 meses de idade e limitando o seu uso a 1 hora por dia para as crianças com idades entre os 2 e os 5 anos. De modo semelhante, em 2019 a Organização Mundial da Saúde publicou orientações relativas ao tempo que deve ser dedicado à prática de atividade física, uso de ecrã e número de horas de sono aconselhado a crianças com idade inferior a 5 anos, não aconselhando o uso de ecrãs a crianças com idade inferior a 1 ano.

Assim, tal como num plano de reeducação física ou alimentar, os bons resultados só poderão ser alcançados se houver um envolvimento conjunto de médicos, pais ou encarregados de educação e professores.

BIBLIOGRAFIA:

  1. Silva V. O brinquedo e a tecnologia - impacto no desenvolvimento humano. Produto Lúdico-Pedagógico para crianças dos 6 aos 10 anos. Mestrado em Design de Produto, Faculdade de Arquitetura - Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal. 2017
  1. Skaug, S, et al. Young children’s television viewing and the quality of their interactions with parents: A prospective community study. Scandinavian Journal of Psychology. 2018
  1. Paiva N, et al. A influência da tecnologia na infância: Desenvolvimento ou ameaça? O portal dos psicólogos. 2015.
  1. Figueiredo M, et al. Hábitos de exposição ao ecrã de uma população Pediátrica de uma área urbana. Nascer e Crescer, Revista do Hospital de Crianças Maria Pia. 2008, vol XVII, n.º 4.
  1. Yogman M, et al. The Power of Play: A Pediatric Role in Enhancing Development in Young Chidren. Committee on psychosocial aspects of child and family health and council on communications and media. 2018.
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