Desculpem, mas eu li! Mexer com as Urgências
DATA
04/11/2019 14:45:15
AUTOR
Rui Cernadas
ETIQUETAS


Desculpem, mas eu li! Mexer com as Urgências

O mundo está em mudança contínua e a demografia desafia-nos.

Vivemos mais do que em qualquer outro momento e sobrevivemos a uma série de ameaças que, no passado, ceifavam milhares e milhares de vidas precocemente.

As patologias em associação, a polimedicação e o acesso fácil a informação via Internet constituem dimensões de preocupação acrescida, mas sublinham, em simultâneo, o tal novo paradigma, no qual a resolução ou resposta isolada a episódios agudos de doença tem que ser alterado e entendido no sentido de pontos no continuum e integração dos processos assistenciais.

Antecipar e adaptar são duas linhas essenciais para um serviço público de saúde, como o Serviço Nacional de Saúde (SNS), se preparar e responder aos desafios da longevidade e da modernidade.

O país dispõe de cuidados de saúde primários (CSP) organizados e o foco no tratamento de situações agudas está desproporcionado e ameaça ruína… Ao mesmo tempo, os Hospitais mantem-se centrados no processo da doença aguda e emergência, bem como nas complicações ou exacerbações de doença crónica. Porém, falta assegurar e fazer funcionar a ligação, a articulação, entre Hospitais e CSP!

A Declaração de Alma-Ata, em 1978, já vai longe, mas marca historicamente o compromisso global com os CSP. Está na hora de mexer com as coisas e com as Urgências também!

Tão assim é que, os Hospitais e os seus Serviços de Urgência se transformaram em relevantes pontos de cuidados ambulatórios para agudos. Ou seja, o que era suposto poder ser um back-up dos CSP transformou-se em mais um centro de saúde, apenas mais bem equipado tecnologicamente, e pior, porta de entrada no SNS!

E de facto, os hospitais não devem estar na primeira linha dos cuidados assistenciais…

Para isso, falta redefinir as funções dos CSP, promovendo a medicina preventiva e investindo na educação para a saúde e na informação contra a doença.

Eventualmente, pensar no envolvimento da rede nacional de farmácias, numa rede mais vasta de pontos de atendimento e orientação de proximidade, com a visibilidade e, digamos, a confiança que um tele-atendimento através de uma linha telefónica não oferece.

E falta criar condições para que a referenciação ao Serviço de Urgência seja indispensável para o acesso, fora de cenário de emergência ou catástrofe.

Os custos hospitalares são muito altos quando comparados com os dos CSP. Mas, é conveniente ser contido na interpretação deste dado. Há capacidades, competências, tecnologias, funções, responsabilidades e decisões diferentes em cada lado, o que explica a necessidade de racionalizar acessos e utilizações.

Isto abriria ainda espaço a outra grande vantagem: a de orientar o desenho da carta hospitalar em função das necessidades das populações e da epidemiologia, mais do que em função das clientelas partidárias autárquicas ou do simples crescimento populacional…

Haverá coragem?

Ou vão entreter-nos com a história da Lei de Bases da Saúde?

Redimensionar as listas de utentes e rever a Carreira Médica é um imperativo
Editorial | Jornal Médico
Redimensionar as listas de utentes e rever a Carreira Médica é um imperativo

A dimensão das listas de utentes e a Carreira Médica são duas áreas que vão exigir, nos próximos tempos, uma reflexão e ação por parte dos médicos de família.

Mais lidas