Os desafios da cirurgia bariátrica

A obesidade é uma doença crónica caracterizada pelo acumulo excessivo de tecido adiposo e definida pelo cálculo do índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m2, segundo a Organização Mundial de Saúde.

É uma questão importante de Saúde Pública de origem multifatorial com atingimento multiorgânico e que, por isso, requer de uma abordagem multidisciplinar.

A cirurgia bariátrica é um procedimento bastante eficaz no tratamento da obesidade, combate e controlo das comorbilidades a ela associadas, como seja hipertensão arterial, diabetes ou apneia obstrutiva do sono, além de contribuir na melhoria da qualidade de vida, por exemplo em termos osteoarticulares, capacidade para o exercício e modificação da imagem corporal.

Segundo a Direção Geral de Saúde, em resumo, consideram-se candidatos a esta cirurgia indivíduos entre os 18 e os 65 anos com obesidade grau 3 (IMC≥40 kg/m2) com ou sem comorbilidades, com insucesso das medidas não-cirúrgicas na redução ponderal, durante, pelo menos um ano, ou doentes com obesidade grau 2 (IMC entre 35 e 39,9 Kg/m2) portadores de comorbilidades graves ou de difícil controlo.

As técnicas cirúrgicas mais comuns que levam a perda de peso são por restrição da quantidade de alimentos que o doente consegue ingerir (banda gástrica ou gastrectomia vertical), absorção deficiente dos nutrientes (derivação bilio-pancreática) ou mista (bypass gástrico). São cirurgias complexas que apresentam inúmeros benefícios mas também risco de complicações, sendo por isso primordial que o utente e o médico conheçam qual o procedimento cirúrgico a realizar e, assim, qual o mecanismo que vai estar implicado na perda de peso.

A abordagem multidisciplinar antes do procedimento é crucial para o seu sucesso, na qual o Médico de Família deve assumir um papel proativo complementando a atividade da equipa hospitalar, ajudando muitas vezes também no contexto familiar e mudanças impostas para atingimento da meta proposta.

Já mais de uma vez me deparei com expetativas irrealistas de resultados de perda de peso e sua velocidade, assim como de total desconhecimento do procedimento cirúrgico a que iriam ser submetidos mesmo após consulta hospitalar e inscrição para cirurgia. Convém salientar a magnitude do procedimento e dos resultados para além da estética.

A intervenção impõe uma mudança nos hábitos dos indivíduos, sendo fundamental aprender a lidar com as limitações que a cirurgia irá colocar, tanto no pós-operatório imediato como a longo prazo, sendo que é muitas vezes um procedimento irreversível. Apesar de os desafios serem diferentes com o decorrer do tempo, exemplos como a restrição alimentar em termos calóricos e de volume ingerido, a flacidez cutânea e a desestruturação da imagem corporal, tem diferente impacto em cada utente submetido a esta cirurgia.

Quando a diminuição do peso corporal e a melhoria das comobilidades deixam de ser o alvo, novos desafios podem surgir, como a gestão dos regimes terapêuticos e dos défices nutricionais subsequentes aos métodos utilizados.

Cabe ao Médico de Família a referenciação aos cuidados hospitalares quando o próprio e o utente discutirem ser o momento ideal, mas também desmistificar, acompanhar antes, durante e depois do processo de perda de peso e as consequências que dai advêm.

2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos
Editorial | Rui Nogueira
2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos

Este ano está quase a terminar e uma nova década vai chegar. O habitual?! Veremos! Na saúde temos uma viragem em curso e tal como há 40 anos, quando foi fundado o Serviço Nacional de Saúde (SNS), há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções.

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