Uma outra realidade dos cuidados de saúde primários
DATA
12/11/2019 09:57:14
AUTOR
Sónia Pires e Inês Carneiro
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Uma outra realidade dos cuidados de saúde primários

A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) é uma realidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) desde 2006.

Dela fazem parte as Equipas de Cuidados Continuados Integrados (ECCI), estruturas da responsabilidade dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) e das entidades de apoio social, orientadas para a prestação de cuidados em contexto domiciliário a pessoas em situação de dependência (funcional, doença terminal ou em processo de convalescença) e respetivas famílias. Atuam ao nível do tratamento, reabilitação e ação paliativa, com foco na maximização da autonomia do utente e capacitação do cuidador.

A ECCI Douro integra a Unidade de Cuidados na Comunidade Douro, pertencente ao Agrupamento de Centros de Saúde (ACeS) Douro I - Marão e Douro Norte desde 2012 e abrange os concelhos de Peso da Régua e Mesão Frio (121.51 Km2 e 21520 residentes). Recebe até 18 utentes, integrados após referenciação das equipas de saúde familiar, hospitais ou da própria RNCCI e aprovação pela Equipa Coordenadora Regional. É constituída por uma equipa multidisciplinar composta por 3 enfermeiros, apoio de médico, assistente social, psicólogo, nutricionista, assistente técnico e operacional. Funciona todos os dias do ano e disponibiliza acompanhamento telefónico.

Com vista a dar resposta a uma lacuna assistencial temporária e a convite do Presidente do Conselho Clínico do ACeS, integramos a equipa desde janeiro de 2019. Esta atividade é tutelada por um Orientador de Formação (OF), aprovada pela Direção de Internato e desenvolve-se num período de 2 horas semanais integrado no horário de 40 horas do Internato Médico em Medicina Geral e Familiar, sem prejuízo da restante vertente formativa e da prestação de cuidados aos utentes da lista dos OF.

Apesar de apreensivas, decidimos aceitar o desafio, com ambição de conhecer outra realidade dos CSP e na certeza de que a prestação destes cuidados de proximidade enriqueceria a nossa formação como futuras Médicas de Família.

Durante o período decorrido (9 meses), a taxa de ocupação de vagas foi de 100% e acompanhamos 18 utentes (13 do sexo feminino e 5 do sexo masculino, com uma média de idades de 75 anos). Os principais motivos de referenciação para a equipa foram cuidados de reabilitação, tratamento de úlceras de pressão, gestão do regime terapêutico e integração aos cuidados no domicílio.

Mais do que aquisição de conhecimentos técnico-científicos, esta experiência permitiu aprofundar a importância inigualável da visita domiciliária (VD) e da prática médica centrada na pessoa doente e fragilizada e no seu núcleo familiar.

Pudemos constatar a relevância de averiguar as condições físicas e apoios técnicos no domicílio e aprender, com a equipa de enfermagem, a intervir sobre cada uma delas - tarefa indispensável numa primeira abordagem e rotina em todas as VD. Não menos importante, o foco no cuidador como elemento crucial no processo de recuperação do utente, sendo fundamental a sua capacitação para a prestação de cuidados ao utente e a si próprio.

Paralelamente, a importância de manter o utente no seu ambiente familiar. O apoio telefónico constitui uma enorme vantagem, pois transmite maior segurança ao cuidador e permite a resolução de muitas situações de agudização no domicílio, evitando recurso desnecessário ao Serviço de Urgência.

Esta experiência revelou-se ainda um desafio ao nível da prevenção quaternária, no combate à obstinação terapêutica. Perante doentes tão complexos e fragilizados, as situações de discussão sobre o balanço entre benefícios e riscos de cada intervenção foram constantes. Na realidade, nem sempre a melhor evidência científica representa o tratamento ideal para o utente.

Por fim, um louvor ao trabalho de equipa, sobretudo de enfermagem que, acompanhando diariamente os utentes e suas famílias, tem um conhecimento holístico da sua situação. Esta articulação completa e facilita a avaliação e intervenção no utente e permite uma melhor gestão de recursos, evitando muitas vezes VD suplementares que poderiam comprometer a organização da prestação de cuidados numa área geográfica tão extensa.

Apesar de toda a dedicação extra-horário que exigiu, ficamos com a garantia de que os cuidados ao utente serão sempre melhores graças a esta experiência.

2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos
Editorial | Rui Nogueira
2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos

Este ano está quase a terminar e uma nova década vai chegar. O habitual?! Veremos! Na saúde temos uma viragem em curso e tal como há 40 anos, quando foi fundado o Serviço Nacional de Saúde (SNS), há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções.

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