Joana Medeiros Leal: “Podemos fazer mais?”
DATA
15/11/2019 10:26:09
AUTOR
Joana Medeiros Leal
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Joana Medeiros Leal: “Podemos fazer mais?”

Cada vez mais os médicos de família são chamados a dar uma resposta holística aos seus utentes.

A ideia de que o médico que trabalha no Centro de Saúde se limita a fazer diagnósticos básicos e a passar receitas está em muito ultrapassada e não corresponde de todo à realidade. Atualmente, o médico família é um pilar fundamental da saúde em Portugal e tem a necessidade de se diferenciar e aprofundar o conhecimento sobre as diferentes patologias com que é confrontado na consulta e sobretudo sobre as mais recentes e eficazes opções terapêuticas.

Cerca de 30 a 40% da população europeia sofre de dor de origem musculoesquelética. Segundo a Direção Geral de Saúde, as doenças cérebro-cardiovasculares e o cancro são as principais causas de morte em Portugal, mas no que concerne à qualidade de vida dos portugueses, esta é afetada sobretudo pelas doenças musculoesqueléticas, depressão, doenças da pele e enxaquecas.

As doenças musculoesqueléticas são das doenças crónicas mais prevalentes no serviço de saúde e que acarretam um grande encargo socioeconómico com impacto individual e social, condicionando a qualidade de vida, levando à limitação da capacidade funcional, ao absentismo laboral e consequentemente ao aumento da despesa em saúde. E, tendo em conta a demografia do país, cada vez mais envelhecido, esta patologias tornar-se-ão ainda mais prevalentes.

Assim sendo, todas estas premissas devem-nos fazer otimizar a abordagem a estes doentes. A realização de injeções intradérmicas, em que fármacos anestésicos e anti-inflamatórios são administrados nos segmentos anatómicos álgicos é uma opção válida e eficaz no tratamento da dor musculoesquelética aguda ou crónica.  

Este procedimento é realizado no Hospital de São José desde 1993, pelo serviço de Medicina Física e Reabilitação, com excelentes resultados, pelo que tem sido replicado pelos vários hospitais do país. Tem indicação na cervicalgia, dorsalgia e lombalgia de causa musculoesquelética, na osteoartrose, na tendinite, na síndrome de conflito subacromial, na gonalgia, nas lesões musculares crónicas, na fibromialgia, entre outras.

Trata-se de um procedimento com pouca complexidade, cujo material necessário é de baixo custo e facilmente adquirido. Causa pouco desconforto ao utente, por serem usadas agulhas que atingem apenas a mesoderme e tem a vantagem de ser rápido de realizar. Muito raros são os efeitos adversos, sobretudo reações cutâneas locais e autolimitadas, verificados ao longo das administrações semanais.

Atualmente, são poucos os locais convencionados onde os utentes podem realizar esta técnica, o que implica que muitas vezes se tenham de sujeitar a tempos de espera e a deslocar a locais mais distantes da sua zona de residência. Para colmatar estas dificuldades considero que os Serviços de Medicina Física e Reabilitação poderiam promover cursos para os médicos de família aprenderem esta técnica e a poderem levar para o centro de saúde. Hoje em dia, já existem consultas diferenciadas da dor, do doente complexo, de cessação tabágica, entre outras, porque não haver também uma percentagem do tempo do agendamento para doentes com patologia musculoesquelética, indo assim de encontro às necessidades dos nossos utentes.

 Sair do gabinete e dedicar algum do tempo das nossas agendas a estes doentes terá num futuro próximo repercussões importantes, não só na melhoria da qualidade de vida dos doentes e consequentemente das suas famílias, como também na diminuição deste motivo de consulta e do recurso à consulta aberta.

Considero que nos cabe a nós, profissionais de saúde, fazer sempre mais e melhor, mantendo-nos atualizados e dinâmicos na prática da Medicina Geral e Familiar, pois como todos jurámos: “A saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação”.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
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Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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