Prevenção quinquenária: quão primordial?
DATA
19/11/2019 10:14:42
AUTOR
Ana Costa e Sá
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Prevenção quinquenária: quão primordial?

“O que há em mim é sobretudo cansaço — / Não disto nem daquilo, / Nem sequer de tudo ou de nada: / Cansaço assim mesmo, ele mesmo, / Cansaço.”, escreveu Álvaro de Campos.

Começo esta minha reflexão com este poema, porque, embora tenha sido escrito em 1934 por um engenheiro em fase de desalento e frustração, poderia muito bem ser um desabafo de um médico nos dias de hoje.

Digo isto, desta forma tão clara, porque a existência de burnout entre a população médica é, atualmente, um assunto que tem merecido especial destaque. O burnout é definido por Maslach & Jackson (1986) como uma síndrome que envolve sintomas de exaustão emocional, despersonalização e diminuição da realização profissional. A exaustão emocional caracteriza-se por sentimentos de cansaço e desgaste emocional; a despersonalização consiste em atitudes e sentimentos de frieza e distância face aos doentes; e a diminuição da realização profissional refere-se à redução dos sentimentos de competência e satisfação no trabalho.

Um estudo realizado na classe médica portuguesa, divulgado em 2017, revelou que 66% dos médicos tinham um nível elevado de exaustão emocional, 39% apresentavam um nível elevado de despersonalização e que 30% mostravam um índice elevado de diminuição da realização profissional. Para além disso, 7% apresentavam níveis elevados nos três indicadores referidos1 – números que, na minha opinião, nos devem deixar alerta.

Maslach referiu, ainda, que o burnout é uma reação disfuncional ao stress profissional prolongado e cumulativo. Ora, num período em que as crescentes exigências profissionais por parte da tutela e os baixos recursos existentes são cada vez mais incompatíveis com a qualidade do trabalho do médico, é expectável que a perceção dos desajustes organizacionais e da incapacidade de dar resposta leve a um estado de exaustão.

E este é um assunto preocupante porque, além de ter consequências pessoais e familiares, tem também impacto no desempenho do médico e na qualidade dos cuidados prestados aos seus doentes.

Assim, parece-me inquestionável a necessidade de investimento na prevenção quinquenária: prevenir o dano para o doente, atuando no médico. E essa prevenção deve ser praticada em vários níveis: parece-me consensual que deve começar, desde logo, num nível mais abrangente, no Governo e nas Administrações Regionais de Saúde, com melhoria de redes de suporte, de recursos materiais e humanos; deve passar também por um aumento da proximidade e da facilidade de comunicação interpares, e pela criação de estratégias para maior fluidez na interação com a comunidade e com o doente; e deve incluir ainda, de forma não menos importante, a esfera pessoal, a relação do médico consigo próprio enquanto pessoa.

Para se fazer um bolo são precisos vários ingredientes. A falta de algum tem sempre um qualquer impacto no produto final. A magnitude desse impacto depende do ingrediente em falta…. Há alguns que são tão essenciais que, sem eles, o bolo não é bolo. Esses ingredientes imprescindíveis devemos querer sempre salvaguardar, como forma de nos respeitarmos a nós mesmos, aos que estão à nossa volta e aos que estão à nossa frente. Quanto aos restantes ingredientes, sem comprometer a garantia de que temos bolo, devemos procurar que ele fique o mais perfeito possível!

 

 

 

Referências bibliográficas:

  1. Vala, Jorge et al. Burnout na Classe Médica em Portugal: Perspetivas Psicológicas e Psicossociológicas. Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. 2017. Disponível em https://ordemdosmedicos.pt/wp-content/uploads/2017/09/ESTUDO-BURNOUT_OM.pdf.
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