(Des)prescrição no Idoso

Os idosos são um grupo caracteristicamente heterogéneo, em que a decisão de (des)prescrever é um desafio.

Intrínseco ao processo de envelhecimento ocorrem alterações fisiológicas, quer a nível da farmacocinética (absorção, distribuição, metabolismo e excreção), quer a nível da farmacodinâmica que tornam necessárias, a priori, as devidas precauções. Como coadjuvante trata-se ainda de uma população com uma prevalência aumentada de doenças crónicas e consequentemente, frequentemente negligenciada no que diz respeito à polifarmácia, o que leva a repercussões muito negativas para o próprio e para o sistema.

Estaremos nós alerta para este problema de Saúde Pública?

Os estudos apontam que a polifarmácia está associada a um risco potencial de eventos adversos, o que condiciona uma maior morbilidade-mortalidade, muitas vezes evitáveis. A polifarmácia aumenta a probabilidade de interações medicamentosas, da prescrição em cascata e erros na adesão à terapêutica. A transição entre instituições/estabelecimentos de cuidados são uma fonte significativa deste problema, sendo que o número de prescritores para um mesmo utente deve ser limitado ou a comunicação entre colegas agilizada.

É necessário um equilíbrio entre prescrever e desprescrever.

O médico de família, com o seu perfil de cuidados continuados e abrangentes e como primeiro contacto com o SNS, situa-se numa posição privilegiada e crítica para mudar todo este paradigma. A restrição de tempo será sempre um obstáculo ativo, mas os clínicos deverão integrar sistematicamente na sua prática de cuidados a otimização do plano terapêutico.  

Estão disponíveis diversas ferramentas de apoio à consulta que podem auxiliar nesta avaliação, como os critérios de Beers, STOPP-START e o Drug Burden Index. No entanto, estes não consideram a complexidade do utente. Do mesmo modo, muitos dos estudos pré-lançamento de fármacos, bem como muitas das evidências dos alvos de tratamento, excluem os utentes idosos, pelo que não são os mais apropriados para os mesmos. Assim, a Sociedade Americana de Geriatria reforça que estes recursos e as guidelines não devem substituir o raciocínio clínico e o senso comum na decisão individualizada de (des)prescrição. 

O que já nos dizia Hipócrates?

Primun non nocere”, e aqui realçamos a prevenção quaternária que se debruça sobre este princípio. Podem ser implementadas diferentes estratégias para minimizar todos estes riscos. Focar sempre a importância das medidas higieno-dietéticas, avaliar e atualizar periodicamente o plano de tratamento, tendo em conta a condição atual e perspetivas do utente, as metas específicas delineadas, o risco/benefício de cada fármaco, e a sua expectativa de vida. Bem como, responsabilizar o utente por se acompanhar em todas as consultas com as embalagens dos medicamentos, incluindo os não sujeitos a receita médica e produtos de ervanárias, muitas vezes esquecidos por ambos os intervenientes.

Nós, futuras médicas de família, consideramos que a desprescrição deverá também, ser encarada naturalmente como a uma intervenção terapêutica. Quantos de nós apresentam alguma resistência em desprescrever? Por um lado, sentimos alguma relutância em interromper medicação sobretudo iniciada por outro colega, e no reverso temos os utentes que se querem manter fiéis à medicação, pelo receio de agravamento da sua condição. 

Na nossa ótica, é prioritário defender a individualidade e diversidade do idoso para a viabilidade e efetividade deste processo. A base primordial de cuidados integra: uma visão holística centrada nas diversas vertentes do utente, biológica, física, psicológica, social e espiritual; a tomada de decisão partilhada, e, sempre que possível, a integração de elementos da rede de apoio.

Referências Bibliográficas:

- Halli-Tierney, A., Scarbrough, C., & Carroll, D. (2019). Polypharmacy: Evaluating Risks and Deprescribing. Retrieved 22 October 2019, from https://www.aafp.org/afp/2019/0701/p32.html

- Rochon, P. (2019). Drug prescribing for older adults. Retrieved 21 October 2019, from https://www.uptodate.com/contents/drug-prescribing-for-older-adults

- Todd, A., Jansen, J., Colvin, J., & McLachlan, A. (2018). The deprescribing rainbow: a conceptual framework highlighting the importance of patient context when stopping medication in older people. BMC Geriatrics18(1). doi: 10.1186/s12877-018-0978-x

2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos
Editorial | Rui Nogueira
2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos

Este ano está quase a terminar e uma nova década vai chegar. O habitual?! Veremos! Na saúde temos uma viragem em curso e tal como há 40 anos, quando foi fundado o Serviço Nacional de Saúde (SNS), há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções.

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