O tempo em Medicina – a importância de dar tempo aos doentes e a perspetiva do interno
DATA
26/11/2019 10:45:18
AUTOR
Cristina Gonçalves Costa e Telma Nunes Lopes
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O tempo em Medicina – a importância de dar tempo aos doentes e a perspetiva do interno

A gestão do tempo é um dos maiores desafios do internato de Medicina Geral e Familiar (e, provavelmente, da vida).

Nos primeiros tempos do Internato, enquanto ajudava a minha orientadora nas consultas, pensava muitas vezes: “Como é que eu vou conseguir ouvir os doentes e fazer as consultas? Como é que vou conseguir fazer tudo? Como é que vou conseguir ter tempo para existir fora da profissão?”.

Existe uma crónica “falta de tempo” na Medicina Geral e Familiar. Todos os dias aparecem novos programas (nem sempre totalmente funcionais), mais “cliques”, mais burocracia, que consomem tempo precioso de consulta. Quantos de nós já não ouvimos os doentes proferirem a frase “O médico só olhou para o computador...nem para mim olhou”.

Aliada a esta situação, a existência de listas de utentes sobrecarregadas, envelhecidas, com maiores necessidades de cuidados, tem levado os profissionais a sentirem-se assoberbados, a dizer “não tenho tempo”, ou a diminuírem ao tempo para estarem com a família. Num estudo nacional, entre 2011 e 2013, 21,6% dos profissionais de saúde apresentaram burnout moderado e 47,8% burnout elevado1.

Ter tempo e dar tempo aos nossos doentes deve ser considerado um ato médico; é fundamental para o estabelecimento de uma relação terapêutica, para uma boa comunicação, e aumenta a realização profissional. É extremamente difícil contabilizar a empatia, a relação entre médico e doente, a boa comunicação nos indicadores e nos índices de desempenho global das unidades de saúde. Mas a luta será sempre não deixar que se reduza o nosso papel a simples atitudes técnicas. Será fundamental que os médicos se libertem de atividades consumidoras de tempo que não têm real impacto na melhoria da saúde dos doentes.

Nestes anos de internato, a perceção do tempo modificou-se: uma consulta centrada no doente (e não no tempo) tem facilitado a gestão e direção da consulta. A verdade é que a “falta de tempo” existe, e provavelmente irá sempre existir: o tempo não quer saber se temos ou não temos tempo. O tempo é um bem precioso, e devemos saber utilizá-lo corretamente, não só pelo bem dos doentes, mas também para o nosso bem, enquanto indivíduos com todas as suas falhas e fragilidades. Somos muito mais que técnicos, somos Médicos de Família.

Referências:

1- Marôco J, et al. Burnout nos profissionais da saúde Portugal, Acta Med Port 2016 Jan;29(1):24-30

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