Desculpem, mas eu li! Estruturar decisões, prevenir demagogias
DATA
02/12/2019 12:08:47
AUTOR
Rui Cernadas
ETIQUETAS


Desculpem, mas eu li! Estruturar decisões, prevenir demagogias

A multimorbilidade, definida como a presença de mais do que uma doença no indivíduo, é já reconhecida nos cuidados primários de saúde (CPS), mais como uma regra do que como uma exceção.

Na verdade, a multimorbilidade aumenta o risco de morte prematura, de hospitalização, de depressão, de polimedicação e a iatrogenia. Mas, agrava ainda a qualidade de vida e, pelo efeito de translação, a carga financeira sobre os sistemas de saúde.

É por isso que para a avaliação do modelo organizativo e para a dispensa de cuidados de saúde seria importante conhecer a sua prevalência e consequências reais. Têm sido publicados inúmeros estudos e revisões sistemáticas nos últimos anos – na última década especialmente – sobre este tema e há necessidade urgente de compreender os determinantes e a prevalência das multimorbilidades e, também, os padrões mais comuns observados nos CSP.

Percebe-se uma das dificuldades de análise: a utilização de diversas classificações e versões, por exemplo, da International Classification of Primary Care (ICPC) ou da International Classification of Diseases (ICD), ou o Sistema Read Codes, que é o sistema de codificação clínica usado pelos clínicos gerais do Reino Unido.

É inquestionável que a idade seja a determinante mais estudada e a generalidade dos estudos demonstra uma associação estatística significativamente clara entre a idade a prevalência da multimorbilidade. Talvez seja menos consistente, mas evidente é o facto de se observar uma relação inversa entre a condição socioeconómica e o objeto da nossa discussão.

Os estudos publicados referem uma grande variabilidade nas estimativas de prevalência e o esforço quanto a determinantes ou padrões perde-se na diversidade dos critérios de selecção e nos modelos de análise estatística. Porém, numa perspetiva de integração deste problema, numa orientação estratégica para os CSP, diria, há realmente alguns vetores que urge trabalhar e equacionar, até para decisões de fundo e de curto prazo para os CSP do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Em concreto, a associação da multimorbilidade à idade, sendo a linha vermelha a dos 65 anos, o género feminino, uma mais baixa condição socioeconómica e a presença de problemas de saúde mental.

O cluster para as mais comuns combinações inclui a osteoartrose, a hipertensão arterial, a obesidade, a diabetes e a doença isquémica cardíaca, não ignorando o peso da insuficiência cardíaca. As disfunções neurocognitivas parecem a cada dia ser mais relevantes dado o perfil de envelhecimento em curso.

Todavia, todos os estudos têm sido efetuados em países desenvolvidos, sobretudo de origem OCDE. O que, diga-se, servindo enquanto comparador, não nos afirma uma verdade mais abrangente do que isso.

O core das funções dos CSP é a coordenação e a integração de cuidados. Esta problemática pertence aos CSP. E os Estados nos serviços públicos de saúde deverão incluir esta preocupação e resposta e reforçar os recursos financeiros e formativos consequentes.

A investigação precisa de ser estimulada até para permitir políticas adequadas e dirigidas de prevenção. O que também teria a vantagem de tornar as demagogias e os populismos menos livres de agravar custos e sofrimento.

2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos
Editorial | Rui Nogueira
2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos

Este ano está quase a terminar e uma nova década vai chegar. O habitual?! Veremos! Na saúde temos uma viragem em curso e tal como há 40 anos, quando foi fundado o Serviço Nacional de Saúde (SNS), há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções.

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