A importância da aplicação dos critérios stopp/start na diminuição das readmissões hospitalares
DATA
03/12/2019 11:23:43
AUTOR
Jornal Médico
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A importância da aplicação dos critérios stopp/start na diminuição das readmissões hospitalares

A população portuguesa está cada vez mais envelhecida, pelo que, a prevalência de doenças crónicas e as consequentes necessidades de cuidados aumentam necessariamente, assim como, a tendência crescente de polifarmácia. (McLay, 2018)

No entanto, a polifarmácia não é sinónimo de prescrição potencialmente inadequada (PPI), sendo a PPI possível, não é, necessariamente, obrigatória. A prescrição terapêutica é cada vez mais desafiante, no que diz respeito à segurança. Os efeitos adversos são, certamente, uma das principais causas de hospitalização, mortalidade e custos para os sistemas de saúde. Por outro lado, idosos com necessidades especiais recebem frequentemente alta precocemente sem revisão terapêutica adequada.

            Sabe-se que quatro em cada cinco doentes têm uma prescrição potencialmente inadequada - PPI. A PPI diz respeito a terapêuticas usadas com maior frequência ou duração do que o recomendado. Desta forma, o risco de efeito adverso supera o benefício clínico. A PPI inclui a medicação potencialmente inadequada – MPI, ou medicação potencialmente omissa – MPO, que inclui medicação recomendada de acordo com evidências clínicas mais atuais. Existem estudos que associam a MPO a um aumento significativo da mortalidade. (David Counter, 2017) (B. Hill-Taylor* BSP, 2015)

            Dispomos hoje de ferramentas que nos permitem detetar mais precocemente a presença de PPI, nomeadamente os critérios de Stopp / Start. Estes foram publicados em 2008 e são amplamente aceites como ferramenta para melhoria da qualidade na prescrição permitindo identificar a MPI e MPO, ambas associadas a um aumento das reações adversas a fármacos, aumento da morbimortalidade e redução da qualidade de vida. Por esse motivo, os critérios de Stopp / Start devem ser aplicados à população geriátrica existindo estudos que comprovam a redução da incidência de quedas em idosos, redução de episódios de delirium, redução dos episódios de hospitalização e consequentemente os custos em saúde.

De acordo Wauters, a MPO mais frequente verifica-se nos doentes com insuficiência cardíaca sistólica em que apenas cerca de 28% tomam efetivamente inibidores da enzima de conversão da angiotensina – IECAS um fármaco que está associado a redução efectiva da mortalidade. De facto, a insuficiência cardíaca é uma doença crónica com morbimortalidade substancial sendo que, no caso da insuficiência cardíaca sistólica, há evidencia de que os IECAS ou antagonistas dos recetores da angiotensina II, beta-bloqueantes – BB e antagonistas dos recetores da aldosterona podem reverter o remodeling cardíaco, reduzir os sintomas e, por esse motivo, reduzir a taxa de hospitalizações, melhorando a sobrevida. (Shannon M. Dunlay, Jessica M. Eveleth, Nilay D. Shah, Sheila M. McNallan, & and Véronique L. Roger, 2011) De igual forma, cerca de 24% dos doentes com doença coronária documentada, história de acidente vascular cerebral – AVC / acidente isquémico transitório AIT e doença vascular periférica - DVP não têm prescrição de antiagregantes planetários. Os cuidados de saúde primários estão, assim, numa posição priveligiada na redução d eventos isquémicos em doentes de alto risco.  Por outro lado, a causa mais frequente de MPI é a toma de benzodiazepinas por um período de tempo superior a 4 semanas. Efetivamente, para cada MPO após 18 meses, está associada a um aumento relativo na taxa de mortalidade de 36% e de 26% na taxa de hospitalizações.   (Wauters M, 2016)

            Seria importante um planeamento abrangente e individualizado da alta para reduzir as taxas de internamento e readmissão. Para além disso, o cumprimento do plano terapêutico após um internamento hospitalar não é, frequentemente o mais adequado. De facto, durante o período pós-alta precoce, os doentes têm um risco aumento de surgimento de sintomas de novo ou não compreender totalmente as recomendações prescritas. Por isso, o contacto telefónico e/ou as visitas domiciliares após a alta seriam fundamentais. A existência de um plano escrito e um esquema terapêutico pode fazer toda a diferença.

Bibliografia

Hill-Taylor* BSP, B. M. (2015). Effectiveness of the STOPP/START (Screening Tool of Older Persons’ potentially inappropriate Prescriptions/Screening Tool to Alert doctors to the Right Treatment) criteria: systematic review and meta-analysis of randomized controlled studies. Journal of Clinical Pharmacy and Therapeutics.

David Counter, J. W. (2017). Hospital readmissions, mortality and potentially inappropriate prescribing: a retrospective study of older adults discharged from hospital. .

McLay, D. J. (2018). Hospital readmissions, mortality and potentially inappropriate prescribing: a retrospective study of older adults discharged from hospital . British Journal of Clinical Br J Clin Pharmacol .

Shannon M. Dunlay, M. M., Jessica M. Eveleth, P., Nilay D. Shah, P., Sheila M. McNallan, M., & and Véronique L. Roger, M. M. (2011). Medication Adherence Among Community-Dwelling Patients With Heart Failure. Mayo Clinic Proceedings.

Wauters M, E. M. (2016). Toomany, too few, or too unsafe? Impact of inappropriate prescribing on mortality and hospitalization in a cohort of community-dwelling oldest old. . Br J Clin Pharmacol.

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