Conspiração do Silêncio
DATA
19/12/2019 10:24:59
AUTOR
Emanuela Pinto Gomes
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Conspiração do Silêncio

A morte é um processo natural do ciclo de vida.

Os cuidados paliativos visam fornecer uma resposta científica e humana às necessidades do doente em fim de vida, família e/ou cuidadores. Sendo um cuidado abrangente tem por objetivo proporcionar que o doente viva com dignidade a última etapa, com o menor sofrimento possível. Oferece a possibilidade de tomar decisões sobre a sua saúde e a sua própria vida, respeitando as convicções e valores que nortearam a sua existência. Ações e cuidados paliativos generalistas devem ser praticados pelos profissionais dos Cuidados de Saúde Primários.

Na fase inicial dos cuidados em fim de vida, o silêncio é comum, afetando o doente, os familiares e os profissionais de saúde. Esta dinâmica pode ocorrer como conspiração do silêncio ou como um pacto. A conspiração envolve a família/cuidador e profissionais que ocultam informações completas ou parciais ao doente. No pacto, o doente e a família concordam em não falar sobre a doença. Em ambos, os acordos podem ser explícitos ou implícitos, com características e consequências diferentes. Geralmente, ocorrem quando o doente é considerado vulnerável, sobretudo com crianças, adolescentes e idosos.

Os cuidadores, desejando proteger, omitem informação, evitam falar sobre a doença e assuntos relacionados com as reais necessidades do doente. Acreditam que este sofrerá com a verdade, perpetuando uma negação cultural da morte.

Os profissionais de saúde promovem a prevenção da conspiração ao facilitar e incentivar a participação ativa do doente no processo da doença, respeitando sempre os seus direitos de autonomia e privacidade. Para tal é necessária uma comunicação adequada e honesta, desde o primeiro contacto, sobre o diagnóstico, tratamento e prognóstico. Esta deve ser adaptada às suas necessidades, considerando-se, desde o início, que é o doente quem toma as decisões sobre a partilha de informações sobre a sua doença.

A pressão exercida pelas Instituições de Saúde para melhorar a produtividade, sem ter em conta a qualidade dos serviços prestados, potencia falhas, objetivação do paciente e desgaste dos profissionais, comprometendo a relação médico-doente.

Quando é identificada esta dinâmica, é importante saber quais os motivos, sem julgar. Devem explorar-se as crenças, avaliar a carga emocional e as repercussões nas diferentes dimensões (psicológica, social e física) no doente e família.

Medo, ansiedade, tristeza, incompreensão e raiva são sentimentos comuns nos doentes nesta situação. Estes constituem uma barreira à reorganização e adaptação a novas situações, de se reconciliar e concluir assuntos pendentes. O doente cria expectativas irrealistas de recuperação, desvaloriza sinais/sintomas, com alteração do limiar de perceção da dor. Verifica-se uma privação do direito do doente em exercer a sua liberdade e autonomia de programar o seu final de vida.

A formação dos profissionais em cuidados paliativos permitiria a comunicação assertiva e a abordagem adequada de situações complexas. Ajudaria na gestão de confundidores internos e externos, melhorando a vivência das próprias emoções, dos sentimentos de frustração e desesperança, por não ser capaz de fornecer um tratamento curativo e na dúvida da adoção de atitudes que perpetuem a vida de um indivíduo.

É necessário incluir a morte, em particular, a ortotanásia, na formação. Esta deve ser vista como um processo natural e adaptativo, com menos deceção e perceção de insucesso da medicina.

Quando os profissionais quebram a conspiração do silêncio, os cuidadores e os doentes em fim de vida reportam uma grande satisfação. Uma comunicação franca, sincera e adequada permite que os dois sintam liberdade em exprimir a própria opinião, satisfazer os desejos e necessidades de fim de vida. Uma comunicação aberta é um elemento chave nesta vivência.



Referências bibliográficas:

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Pedro Ribeiro da Silva. A comunicação na prática médica: seu papel como componente terapêutico. Rev Port Clin Geral 2008;24:505-12

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