O médico interno na hora da despedida!
DATA
03/01/2020 10:26:19
AUTOR
Susana Fernandes
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O médico interno na hora da despedida!

Ao iniciar o internato numa especialidade médica é inevitável não imaginarmos a sua concretização.

A ânsia de que esse momento chegue acompanha os longos quatro, cinco ou seis anos que, em média, são necessários para nos tornarmos médicos especialistas, contudo é raro falarmos sobre como devemos viver este período de transição.

O volume de tarefas que a elaboração do currículo final exige desvia a atenção dos sentimentos que existem na “hora do adeus” do local de formação. Nesta fase é tempo de nos despedirmos dos colegas com quem trabalhamos, aprendemos e partilhamos tantas alegrias e algumas dificuldades mas, também, de nos despedirmos daqueles que são a “pedra angular” da nossa atividade, os utentes.

Particularmente na Medicina Geral e Familiar esse processo é um grande desafio. Muitos dos utentes que vejo agora, nos últimos dias de trabalho na USF, já me conhecem há quatro anos e acompanharam o meu crescimento como médica. Mas eu também conheço essas pessoas, sei os problemas de saúde que tiveram, as alterações de medicação que foram realizando e os hábitos que consegui (ou não) introduzir nas suas vidas. Na maioria das vezes conheço, também, as suas famílias, acompanhei as gravidezes, vi crescer as crianças e apoiei o processo de luto por aqueles que faleceram.

No início pode ter sido complicado apresentar-me como a “Drª que está a trabalhar com o seu médico de família” e convencê-los de que daquela vez a consulta podia ser comigo pois iria utilizar os meus conhecimentos (muitos deles acabadinhos de adquirir) para atender às suas necessidades. Mas com o passar do tempo, a relação clínica foi-se estabelecendo e tornei-me, também, médica de família para aqueles utentes.

É com agrado que escuto as palavras de satisfação para com o meu trabalho, porém, ao longo dos quatro anos fui explicando que a minha presença lá era temporária e que depois partiria para outro desafio, com outros utentes. Agora que chegou esse momento, sinto que a tarefa não é tão simples como parecia. É difícil pensar que não volto a ver novamente o “Sr. João” a quem fiz consultas no domicílio ao longo destes anos, que não vou acompanhar o crescimento do irmão da “Beatriz” que acaba de nascer ou que não poderei consolar nos próximos meses a “D. Rosa” que perdeu agora o marido com quem esteve casada mais de 40 anos. Também não é fácil pensar que deixarei de ter, no meu dia-a-dia, os colegas com quem fui partilhando muito mais do que 40 horas semanais de trabalho e que já me conhecem ao ponto de não me fazerem muitas perguntas logo pela manhã e de não ficarem intimidados com o meu humor atrevido. Prometemos continuar a manter contacto e digo que participarei sempre nas atividades de teambuilding que fizerem, mas lá no fundo todos sabemos que é difícil que assim aconteça.

O que vem é ainda uma incerteza, é tempo do “não sei”.

Não sei como vai correr o exame final nem o número de quilómetros que me vão distanciar do meu local de formação e da minha casa.

Não sei como será a minha próxima equipa de trabalho, nem sei o tempo que lá permanecerei.

Não sei se os meus próximos utentes serão, em média, mais velhos ou mais doentes que os atuais, nem tão pouco se lhes agradará a minha chegada.

Mas há uma coisa que sei e guardei para o futuro, foi no internato que conheci a casa que me tornou médica de família e os utentes que me ensinaram a “arte de cuidar”. A todos eles deixo o meu agradecimento nesta “hora de despedida”.

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Editorial | Jornal Médico
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