Desculpem, mas eu li! Do cancro do pulmão a outros cancros da saúde…
DATA
07/01/2020 15:11:45
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Jornal Médico
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Desculpem, mas eu li! Do cancro do pulmão a outros cancros da saúde…

O cancro do pulmão está fortemente associado ao tabagismo, mas nem os avisos nos maços de cigarros, nem a difusão de notícias sobre os malefícios desta dependência parecem fazer parar o consumo e reduzir o impacto na saúde e contas públicas!

E assim continua imparável na sua incidência e mortalidade…

Julgo que medicamente se impõe sermos claros na mensagem contra o tabagismo – e as suas novas formas – alertando para que, os ex-fumadores se mantêm como grupo de risco importante, pese embora os ganhos em aspetos múltiplos da promoção da saúde.

A generalidade dos cancros do pulmão é diagnosticada em fases demasiado avançadas. A ideia do rastreio, através de um teste de deteção eficiente mantem-se sobre a mesa e em investigação. A própria União Europeia aposta nesta estratégia. Mas, terão países como Portugal capacidade e meios financeiros para esta via? E teremos capacidades de resposta para os casos rastreados no âmbito do nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS), quando sabemos da enorme assimetria na prestação de cuidados assistenciais oncológicos pelo país?

Mas o SNS e o governo têm outros “cancros” para tratar antes que eles nos “tratem” a nós… Sobretudo um governo e um ministério da saúde que, independentemente do seu titular, teimam em fazer dos portugueses “atrasados mentais”.

Longe vão os tempos da troika, mas a despesa com tarefeiros no SNS atingiu, em 2017, os 98,1 milhões de euros. Porém, em 2018 esta despesa ainda cresceu mais, ultrapassando os 105 milhões, dos quais 65% com encargos ligados à prestação destes serviços em urgências!

Para se perceber melhor esta “desgraça”, diga-se que o montante despendido em prestação de serviços por tarefeiros e em horas extraordinárias possibilitaria pagar a contratação anual de cinco mil médicos para o SNS, como quadros permanentes!

As horas extraordinárias, por exemplo, só ao nível do setor da enfermagem representaram 683 mil horas!

E se quiserem pôr em causa todos estes dados, ponham. Não me incomoda, são os dados do relatório dito social (na verdade, o relatório do desperdício e da incapacidade de gerir bem) do Ministério da Saúde e do SNS.

O mais espantoso é que ouvimos a ministra da Saúde, reconduzida, a dizer que entraram mais trabalhadores no SNS… E parece ser verdade, mais de 3.400.

Mas, então como se explicam tão maus resultados em termos de produção – duplicou o número de doentes enviados para cirurgia no setor privado e social; os tempos de espera para cirurgia e os tempos máximos de resposta foram ultrapassadíssimos – com mais profissionais (quase três por cento a mais), maior despesa salarial directa, aumento de sete por cento em tarefeiros, o mais alto valor de sempre em despesa com trabalho suplementar e um volume de reclamações e protestos, com urgências fechadas dia sim, dia não?

Não vai ser fácil dar respostas.

Já ninguém acredita mais na vinda do diabo, porque se calhar ele já cá está.

E ninguém vai aceitar mais desculpas com o passado, até porque o passado, neste caso da Saúde e não só, até é os dos mesmos governantes e nomeados.

Os cidadãos enquanto contribuintes têm direito a exigir que os bens e recursos públicos sejam bem administrados e possam repercutir na sociedade um impacto favorável e estimulante.

Os cidadãos enquanto utentes dos serviços públicos têm direito a exigir ser tratados de forma decente e capaz, não ficando à mercê da vontade e do sacrifício dos profissionais que os recebam e atendam ou tratem.

Os cidadãos enquanto eleitores podem enganar-se no momento de ida às urnas, mas os exemplos que se espalham desde a Ásia à América do Sul vão alertando para o barril de pólvora que se pretende não vislumbrar.

Como com o cancro, esperemos que o diagnóstico, apesar de tardio possa ainda permitir o tratamento em tempo útil…

800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde
Editorial | Jornal Médico
800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde

Se não os tivéssemos seria bem pior! O reforço do Programa Operacional da Saúde com 800 milhões de euros pode ser entendido como sinal político de valorização do setor da saúde. Será uma viragem na política restritiva? O Serviço Nacional de Saúde (SNS) de 40 anos precisa de cuidados intensivos! Há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções. É urgente pensarmos na nova década com rigor e disponibilidade sincera.

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