A crise da abstinência tabágica

O tabaco, vendido de forma legal, mata os consumidores de forma previsível e tem um consumo prevalente na atualidade.1

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a pandemia do tabagismo foi responsável pela morte de 100 milhões de pessoas no século XX.1 Alguns estudos sugerem potenciais propriedades mutagénicas da nicotina com contribuição para o desenvolvimento de diversas neoplasias.5 Em Portugal, no ano 2016, estima-se que o tabagismo contribuiu para a morte de 11000 pessoas, sendo a faixa etária dos 50 aos 59 anos a mais afetada.2 Esta avaliação epidemiológica demonstra a importância da promoção da cessação tabágica e a necessidade da reconstrução ideológica do tabagismo como uma doença crónica e uma dependência.

               Atualmente, a maioria dos fumadores está suficientemente informado sobre os efeitos perniciosos do tabaco, mas a tomada de decisão de deixar de fumar permanece dificultada pela dependência da nicotina. Um dos marcos importantes no combate à dependência do tabaco, com impacto no quotidiano clínico, foi a comparticipação da vareniclina, uma vez que permitiu estimular a motivação de muitos fumadores a transitar para a fase de preparação do círculo de Prochaska e Diclemente. Ademais, a introdução de reformas políticas que limitam o seu uso em locais públicos, parecia anunciar o início do fim da era do tabaco.

               No entanto, a indústria tabaqueira tentou revolucionar o seu uso através da divulgação de um novo esquema de marketing e design com o cigarro eletrónico e tabaco aquecido. O seu objetivo foi a criação de um método com maior aceitabilidade pelos fumadores, com vista à aquisição de novos clientes, em que cada inalação fosse teoricamente isenta de substâncias potencialmente prejudiciais à saúde, reforçando a sua inocuidade e desculpabilizando o seu uso.

               Os cigarros eletrónicos são dispositivos que, a partir do aquecimento de uma solução de água, propilenoglicol ou glicerina, nicotina e agentes aromatizantes, produzem um aerossol. Todavia, este apresenta quantidades variáveis de substâncias tóxicas e com potencial carcinogénico.3 Em contrapartida, o tabaco aquecido é um dispositivo que produz um aerossol composto por água, glicerina e nicotina através do aquecimento do tabaco a 300 ºC, em vez da sua combustão. De forma análoga, o produto exalado contém sustâncias potencialmente cancerígenas.4

               No quotidiano clínico, estas novas configurações têm dificultado o fomento da abstinência tabágica, pois para além dos motivos previamente referidos, são consideradas uma forma de transição para deixar de fumar. No entanto, a manutenção do consumo de nicotina promove a persistência da dependência e não constitui uma ponte para a abstinência. O uso destes dispositivos representa frequentemente um descontrolo do consumo de nicotina pela incapacidade de contabilização pelo próprio utente com consequente limitação da avaliação pelo clínico. Adicionalmente, a venda do cigarro eletrónico encontra-se generalizada através da venda física e digital, sem controlo da sua composição ou construção pelas entidades de saúde ou de defesa do consumidor. Este facto é preocupante, sendo urgente a instituição de políticas de controlo destes dispositivos.

               Um dos pilares da cessação tabágica é a motivação. A manutenção do tabagismo através do cigarro eletrónico ou do tabaco aquecido sugere ausência de motivação suficiente. No entanto, a função do médico e demais profissionais de saúde é fomentar a mudança de comportamentos em vez da sua substituição. Deste modo, deve ser recomendada proativamente a cessação tabágica como processo terapêutico com destaque para as vantagens da plena cessação.

               Destarte, o tabagismo permanece uma das principais causas evitáveis de patologias crónicas, perda de qualidade de vida e morte prematura. Por conseguinte, o seu uso deve ser desaconselhado independentemente da forma de consumo, não sendo o cigarro eletrónico, nem o tabaco aquecido inertes ou elos de transição para abstinência tabágica.

Referências Bibliográficas

  1. WHO Report on the Global Tobacco Epidemic, 2008: The MPower Pachage. Geneva, Worl Health Association, 2008.
  2. Programa nacional para a prevenção e controlo do tabagismo, 2017. Lisboa, Direção Geral de Saúde, 2017.
  3. Cheng T. Chemical evaluation of electronic cigarettes. Tob Control. 2014;23 Suppl2:ii11-7.
  4. Auer R, Concha-Lozano N, Jacot-Sadowski I, Cornuz J, Berthet A. Heat-Not-Burn Tobacco Cigarettes: Smoke by Any Other Name. JAMA Intern Med. 2017;177:1050-52.
  5. Grando SA. Connections of nicotine to cancer. Nat Rev Cancer. 2014;14:419-29.
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Editorial | Jornal Médico
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