A importância dos determinantes sociais e da literacia em saúde
DATA
13/01/2020 22:49:18
AUTOR
Luísa Silva
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A importância dos determinantes sociais e da literacia em saúde

Na Medicina Geral e Familiar é característica uma abordagem centrada na pessoa, orientada para o indivíduo, a sua família e a comunidade em que se insere. São prestados cuidados de forma personalizada, uma vez que, o que é apropriado para uma pessoa não o será para outra, e a saúde é determinada por fatores individuais mas também pelo contexto e ambiente em que cada um se insere. Por esse motivo, é fundamental o Médico de Família ter presente quais os determinantes sociais que podem influenciar a saúde de cada pessoa. 

Além das suas características individuais e comportamentos, um indivíduo é influenciado pelo seu ambiente social, físico e económico. Os determinantes sociais de saúde são fatores do contexto ambiental que podem levar a desigualdades em saúde e que incluem a pobreza, educação,  habitação, segurança alimentar, acesso a transportes, desemprego, segurança pública e violência. Maiores rendimentos e um melhor status social estão associados a uma melhor saúde, assim como um baixo nível de educação se associa a pior saúde, mais stress e menor autoestima. As redes de suporte social, o apoio da família, dos amigos, da comunidade, a cultura, o acesso e utilização dos serviços de saúde são também determinantes fundamentais para a saúde de uma pessoa. 

Muitos destes fatores, que na maior parte das vezes não são passíveis de controlo pelo próprio indivíduo, vão também influenciar a sua literacia em saúde. 

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a literacia em saúde implica a conquista de um nível de conhecimentos, capacidades pessoais e confiança para tomar medidas que melhorem a saúde pessoal e comunitária, através da transformação de estilos e condições de vida. A literacia em saúde observa-se aos mais variados níveis, desde a capacidade de partilhar uma história clínica, saber  gerir doenças crónicas, saber localizar os serviços de saúde, saber utilizar novas tecnologias e compreender conceitos matemáticos como probabilidade e risco. A literacia em saúde implica a posse de conhecimentos básicos sobre saúde, nomeadamente a natureza e causa das doenças e a sua relação com ações do estilo de vida, como a alimentação e o exercício físico.

Os determinantes sociais relacionam-se com o grau de literacia em saúde. Minorias étnicas e raciais, pessoas com menos escolaridade e pessoas com menos rendimentos estão em maior risco de possuirem uma literacia em saúde mais baixa. A educação, o conhecimento da língua, a cultura, o acesso a recursos são fatores que intervêm no nível de literacia do indivíduo.

Várias organizações profissionais recomendam a utilização universal de alguns “cuidados” relativos à literacia em saúde, dando informação acessível e fácil de compreender a todos os doentes, independentemente do seu nível de literacia ou educação. Isto inclui, por exemplo, utilizar uma linguagem simples, explicar termos técnicos, falar claramente e num ritmo moderado, fracionar informação mais complexa e confirmar se o doente compreendeu a informação.

É difícil para os doente ou profissionais de saúde controlarem diretamente muitos dos determinantes de saúde. Contudo, ao melhorar o acesso e a compreenção das pessoas de informações corretas sobre saúde está a melhorar-se a sua literacia, oferecendo competências necessárias para a gestão da saúde e prevenção de doenças, contribuindo para o seu empowerment.

Neste sentido, o médico de família assume um papel de liderança na identificação e abordagem das diferentes questões que afetam a saúde e deve integrar os fatores comunitários em conjunto com as patologias, assim como ter o cuidado de não sobreestimar a literacia em saúde e assumir incorretamente que as informações foram bem compreendidas. 


Bibliografia

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