SER Médica de Família

“Quero ser médica!” disse esta frase ainda em tenra idade. Lembro-me de a verbalizar ainda andava na escola primária.

Lembro-me de a repetir vezes sem conta daí em diante, até ao dia em que entrei na faculdade e o meu sonho se começava a cumprir. Não foi um processo fácil, nunca o é, deparei-me com percalços pelo caminho, tive momentos em que o meu desejo foi colocado à prova. No entanto, a paixão pela Medicina e o apoio da família ampararam todas as quedas e impulsionaram-me a seguir em frente.

Lembro-me do dia em que terminei a faculdade, do dia em que me inscrevi na Ordem dos Médicos, do dia do Juramento de Hipócrates. Recordo-me da intensidade com que vivi cada momento.

Lembro-me do dia em que escolhi a especialidade. Fiz uma retrospetiva, a Pediatria sempre fora a minha primeira opção até entrar na faculdade. No decorrer do curso e no internato do ano comum, outras opções foram surgindo, Cirurgia Geral, Pneumologia e Medicina Geral e Familiar. Foi com algumas dúvidas que escolhi esta última, especialidade que congrega muitas outras e que permite ser um bocadinho de tudo a cada dia...

Hoje, após 4 anos de especialidade, sinto que fiz a escolha certa, a escolha do coração, aquela que me preenche na totalidade e me faz sentir verdadeiramente médica. Quem me conhece, sabe o quão importante para mim é a família. E ser médica de família é ser médica do doente e da sua família, é ser especialista na pessoa no seu global, considerando os seus contextos familiares e comunitários e as suas vertentes física, psicológica, social, cultural e existencial. É ser especialista da pessoa ao longo do tempo, conhecê-la verdadeiramente, a si e às suas vivências, acompanhar o seu crescimento, cuidar dela... É agir na promoção e manutenção da saúde, com modificação de fatores de risco contributivos para o surgimento de doença, no diagnóstico precoce, no tratamento de situações agudas e/ou crónicas e prevenção das suas complicações, na reabilitação, na prestação de cuidados paliativos, na prevenção do ato de “medicalizar” e do burnout do profissional e cuidador... É promover a acessibilidade aos cuidados no domicílio... É estabelecer “pontes” com outras especialidades, meios e serviços e efetuar o acompanhamento durante e quando os cuidados prestados pelas mesmas não são mais precisos... É assumir um compromisso para toda a vida, em todas as fases da vida, compromisso que não cessa com a cura da doença ou o fim de vida. É estabelecer uma boa comunicação com o doente, fulcral para o sucesso terapêutico.... É ouvir, perguntar, imaginar-se no lugar do outro.... É criar uma ligação médico-doente duradoura, fortalecida a cada consulta, dia após dia, ano após ano...

Como diz Nuno Lobo Antunes, o “médico e o seu doente são um só, face dupla da mesma moeda”. Na Medicina Geral e Familiar não poderia ser de outra forma.

Não sei o que o futuro me reserva, mas a partir de agora, posso dizer com emoção e orgulho “vou ser médica de família”.

800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde
Editorial | Jornal Médico
800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde

Se não os tivéssemos seria bem pior! O reforço do Programa Operacional da Saúde com 800 milhões de euros pode ser entendido como sinal político de valorização do setor da saúde. Será uma viragem na política restritiva? O Serviço Nacional de Saúde (SNS) de 40 anos precisa de cuidados intensivos! Há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções. É urgente pensarmos na nova década com rigor e disponibilidade sincera.

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