Tempo conjugado no presente
DATA
21/01/2020 10:56:43
AUTOR
Ana Teresa Abreu
ETIQUETAS


Tempo conjugado no presente

Não percas tempo. Avalia o episódio anterior, lê os registos. Planeia a agenda da consulta que vais iniciar.

Chama pelo utente e vai recebê-lo à porta do gabinete. Repara como ele vem a deambular com dificuldade, repara como ele precisa do seu tempo. Não desesperes. Recebe-o com um sorriso e ouve ativamente as suas queixas. Sê empático, desvia o olhar do ecrã e cruza-o com o da pessoa que estás a cuidar. Passaram oito minutos e entregou-te problemas guardados ao longo de oito meses. Organiza-te. O teu tempo é curto, mas é o tempo dele. Faz as tuas perguntas, inspeciona, palpa, ausculta. Ele diz qualquer coisa sobre o jogo de futebol do vosso clube na noite anterior mas só sorris, porque não há tempo a perder. Explica com clareza as tuas conclusões e certifica-te que a informação é entendida. Propõe um plano, considerando as suas preferências e idiossincrasias. Olha para o relógio, o tempo não para. Percebes que toma dois fármacos iguais por terem embalagens diferentes. De novo, não desesperes! Revê toda a prescrição habitual e explica-lhe como tomar cada um deles. Escreve num papel para poder mostrar à esposa que organiza a sua medicação. Preparas-te para encerrar a consulta, já atrasado para iniciar a seguinte. E lá vem o já agora!… Sabes que os quinze minutos de que dispõem já se esgotaram, mas não vais falar de tempo. E lá vem o sinal de alarme, a verdadeira queixa escondida. Culpas-te por a não teres identificado no início da consulta. Se ao menos tivesses mais tempo… 

É este sentimento de frustração que nos assalta todos os dias. Não ter tempo para observar quem está à nossa frente, porque há cliques para fazer, exames para registar ou documentos para preencher. Não ter tempo para ouvir as aparentes conversas circunstanciais que levam ao principal motivo de consulta. Não ter tempo para integrar conhecimentos ou estudar um caso clínico. Não ter tempo para fazer uma pausa entre consultas e cumprimentar o colega no gabinete ao lado.

Não ter tempo para sentir que somos Médicos de Família.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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