Excesso de peso nas crianças e jovens: o que está a falhar?

O excesso de peso e obesidade nas crianças e jovens não é um problema recente. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que se trata de um dos mais sérios desafios de saúde pública do século, alerta que todos conhecemos e já debatemos em algum momento, com utentes, colegas, amigos ou família.

Ter-se-á esgotado este tema?

Na prática, o alcance da informação que julgamos estar acessível a toda a população é difícil de medir, assim como o impacto que esta exerce na mudança de comportamentos.

Sabemos pelo estudo COSI que, em Portugal, a prevalência de excesso de peso e obesidade em crianças dos 6 aos 8 anos diminuiu entre 2008 e 2019, situando-se atualmente nos 29,6%. Paralelamente, o perfil de saúde do país aponta para o aumento do número de adolescentes de 15 anos com excesso de peso ou obesidade nas últimas duas décadas, problema que atinge praticamente 1 em cada 5 adolescentes. Relativamente à idade adulta, a prevalência nacional da obesidade é superior à média da União Europeia (15,4% versus 14,9%, em 2017).

Como interna de medicina geral e familiar, ao longo dos 4 anos de internato tive necessidade de abordar esta problemática regularmente nas consultas de saúde infantil e juvenil. Recordo situações de sucesso, com envolvimento dos pais e da criança/jovem na melhoria dos hábitos, mas sobrepõem-se casos de insucesso, que me conduziram à reflexão sobre o que estaria a falhar na consulta.

A redução do nível de atividade física e as mudanças nos padrões alimentares têm sido os principais fatores a contribuir para o desequilíbrio energético e aumento de peso. Tratando-se de fatores modificáveis, desde que identificados e após o estabelecimento de uma comunicação eficaz entre médico-utente, seria expectável a sua correção. Obviamente, a complexidade do problema ultrapassa esta análise e o impacto da educação para a saúde que realizamos em consulta é insuficiente na maioria dos casos.

Neste sentido, a OMS define literacia em saúde como o conjunto de competências que permitem ao indivíduo ter acesso à informação, compreendê-la e usá-la de maneira a manter uma boa saúde, com decisões fundamentadas. Significa mais do que ler panfletos, compreender rótulos alimentares ou cumprir planos terapêuticos. É um recurso essencial para o empowerment individual e tem benefícios para a população, constituindo assim uma responsabilidade de diversos setores como o da saúde, educação, cultura, entre outros.

O governo aumentou os impostos sobre bebidas açucaradas e fez com que se retirassem alimentos doces de bares e máquinas de venda automática, nas instalações do Serviço Nacional de Saúde. Este ano foi também aprovada uma alteração do código de publicidade, para restrição de anúncios sobre alimentos nocivos que se dirigem a menores de 16 anos. Todas estas medidas visam promover uma alimentação mais saudável.

Ao nível dos municípios, a prática de atividade física pode ser promovida através da disponibilização de espaços próprios para o efeito, como passeios largos para peões, ciclovias ou piscinas municipais. Nas escolas, os professores devem ter formação na área e os programas educativos devem contemplar atividades sobre estas temáticas, sobretudo porque hábitos saudáveis serão mais fáceis de manter ao longo da vida se adotados em idades mais jovens.

É consensual a importância dos determinantes sociais sobre a saúde. O nível socioeconómico, a escolaridade e as condições de trabalho dos pais têm implicações na educação e saúde dos filhos, mesmo que o acesso aos serviços de saúde e à informação esteja otimizado. Perante isto, e regressando à consulta do médico de família, não descarto o papel fundamental da educação e gestão do processo de saúde ao longo do crescimento da criança e da sua família, mas este só fará sentido se articulado com nutricionista, enfermeiro, psicólogo, fisioterapeuta, equipa de saúde escolar, agrupamento escolar, município e políticas de saúde. Em Saúde Pública, a problemas complexos, respondem soluções também elas complexas.

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Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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