(Des)Prescrição de suplementos vitamínicos

No decurso das alterações do padrão alimentar da população, face ao paradigma vigente na sociedade atual, a suplementação da dieta com multivitamínicos constitui uma prática cada vez mais comum.

A preocupação crescente com o ideal de saúde e a facilidade de aquisição destes produtos traduz-se num consumo indiscriminado e inapropriado de substâncias cujo desfecho pode acarretar riscos graves para a saúde.

Atualmente verifica-se um aumento do consumo de multivitamínicos (ou suplementos de alguns nutrientes específicos), sem qualquer prescrição médica e/ou indicação por Nutricionista. No entanto existem recomendações especificas, nacionais e internacionais, relativas ao seu uso e benefício, nomeadamente: na preconceção e na gravidez, sobretudo com ácido fólico e iodo (este também durante a amamentação),  nas doses de 200μg e 400μg respetivamente,  pelos benefícios que estas substâncias apresentam na formação e desenvolvimento do feto; na osteoporose, através de cálcio e vitamina D, uma vez que é difícil adquirir as quantidades necessárias destes nutrientes somente através da dieta; quando através de análises clínicas existe um défice diagnosticado de algum nutriente (zinco, magnésio, ferro, vitamina B12, vitamina D, etc.); nos casos de pacientes submetidos a cirurgia bariátrica; no contexto de determinadas condições gastrointestinais que condicionem a absorção de nutrientes. Relativamente às situações crónicas, no alcoolismo é necessário suplementar os doentes com vitaminas do complexo B e nos casos de cicatrização de feridas como úlceras por pressão, a suplementação multivitamínica torna-se igualmente vantajosa.

Em contexto desportivo existem também algumas situações que podem exigir suplementação nutricional adicional. Deste grupo fazem parte as dietas demasiado restritivas, de que são exemplo os ciclos cetogénicos de emagrecimento e ainda os ciclos competitivos de elevada exigência física (maratonas de bicicleta, torneios de desportos de equipa com tempo de recuperação curto, vários treinos diários ou jogos semanais consecutivos). Apesar de não existir consenso nesta temática, há quem defenda que a suplementação deve ser preconizada nos dias em que por qualquer razão não seja possível atingir pelo menos três porções no conjunto de sopa, fruta e legumes.

Nos casos de viagens longas, nas quais não seja possível ter uma alimentação adequada, poderá fazer sentido a suplementação com multivitamínicos apesar de, até ao momento, não existir evidência científica que comprove esta necessidade. 

Hoje em dia é sabido que o consumo crónico de altas doses de antioxidantes, quer por atletas quer por pessoas sedentárias, é de facto mais prejudicial do que benéfico. Neste parâmetro incluem-se as altas doses de vitamina C (acima de 1000mg), de vitamina E (acima de 15mg) e também de betacarotenos (acima de 9mg). Ainda assim, no caso dos atletas, tendo em conta o maior gasto calórico e consumo de oxigénio (considerando sempre o tipo e volume de treino específico do desportista), existem recomendações para que a ingestão de vitamina C e E possa ser o dobro da dose diária recomendada, podendo alcançar os 200 mg  e 24 mg das respetivas vitaminas.

É importante ainda salientar que certos fármacos como os corticoides, diuréticos e antidepressivos poderão causar défices de vários nutrientes. Salienta-se, por exemplo, o défice de vitamina B12, em casos particulares associados à terapêutica com inibidores da bomba de protões ou metformina. Neste contexto, a avaliação, aconselhamento e seguimento pela equipa multidisciplinar são cruciais. Por outro lado, a deficiência de certos nutrientes pode precipitar a toxicidade de alguns fármacos, como por exemplo de potássio, o que pode aumentar a toxicidade da digoxina. Este tipo de situações carece de monitorização e vigilância apropriadas.

Como aspeto crucial importa sublinhar que nada substitui os nutrientes provenientes de uma alimentação equilibrada, rica em fruta e legumes, sendo que os suplementos apenas devem estar presentes nos casos em que não é possível colmatar as necessidades com uma dieta adequada, funcionando apenas como um recurso e nunca contemplando a regra.   

Neste sentido, torna-se fundamental uma avaliação pormenorizada e uma abordagem individual quanto à necessidade de suplementação, que deverão ser sempre realizadas em articulação com Médico e/ou Nutricionista, de forma a otimizar as funcionalidades de cada um e garantir qualidade de vida e bem-estar ao utente.



Bibliografia

1- Direção-Geral de Saúde. Aporte de iodo em mulheres na preconceção, gravidez e amamentação. norma nº 011/2013 de 26/08/2013. Lisboa: DGS;2013.

2- Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional da Gravidez de Baixo risco. Lisboa: DGS;2016.

3-Direção-Geral da Saúde. Nutrição no desporto. Lisboa: DGS;2016.

4-Abe-Matsumoto et al. Suplementos vitamínicos e/ou minerais: regulamentação, consumo e implicações à saúde. Cad. Saúde Pública 31 (7) Jul 2015.

5- Emily S. Mohn, Hua J. Kern, Edward Saltzman, Susan H. Mitmesser, Diane L. McKay. Evidence of Drug–Nutrient Interactions with Chronic Use of Commonly Prescribed Medications: An Update. Pharmaceutics. 2018 Mar; 10(1): 36. doi: 10.3390/pharmaceutics10010036

6-Hyla Cass. A Practical Guide to Avoiding Drug-Induced Nutrient Depletion. NutritionReview.org. December 11, 2016. Disponível em: https://nutritionreview.org/2016/12/practical-guide-avoiding-drug-induced-nutrient-depletion/

7-Johanna T, Paul M. Coates, Michael J. Smith. Dwyer Dietary Supplements: Regulatory Challenges and Research Resources. Nutrients 2018, 10(1), 41; https://doi.org/10.3390/nu10010041

8-G. Shaw, A. Lee-Barthel, M. L. Ross, B. Wang, K. Baar. Vitamin C-enriched gelatin supplementation before intermittent activity augments collagen synthesis. American Journal of Clinical Nutrition, 2016; doi: 10.3945/ajcn.116.138594

9-Nutrition for athletics. a practical guide. Updated June 2011. IAAF 2007. Disponível em:https://www.olympiatoppen.no/fagomraader/fagstoff/idrettsernaering/artikler/iaaf/media39182.media

10- Vitamin E. NutritonReview.org. October 10, 2013. Disponivel em: https://nutritionreview.org/2013/10/vitamin-e/

DESconfinar sem DISconfinar: Um desafio para inovar e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
DESconfinar sem DISconfinar: Um desafio para inovar e aproveitar a oportunidade
Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

Mais lidas