O Médico de Família e o Luto

O luto não é só a perda física de alguém. É a perda de uma pessoa com quem se partilha relações emocionalmente fortes. É acima de tudo, a perda de um objecto de amor.

A morte de um ente-querido é um acontecimento marcante na vida de qualquer ser humano, causando quer reações emocionais quer reações físicas.

Existe uma série de variantes que podem condicionar o processo de luto. Acontecimentos prévios, bem como o grau de proximidade e a qualidade da relação entre os indivíduos parecem exercer uma enorme influência. 

A previsibilidade/imprevisiblidade da morte parece ter igualmente um grande impacto. Um acidente, um suicídio, a ausência de uma despedida ou preparação para a morte pode dificultar a sua aceitação.

Segundo Freud, acaba-se o luto quando se pode canalizar a energia investida no outro para outras coisas, quando se mantém a identidade com essa transição, que apesar de doer, acrescenta algo. A morte poderá constituir uma libertação para vivenciar outras relações afectivas. Stroebe desenvolveu um modelo de défices. O luto é apresentado como a perda do suporte instrumental (por exemplo, ganha-pão da família), perda do suporte de validação (perda do conselheiro) ou perda de suporte emocional.

Após a perda de alguém que nos é querido, existe uma série de tarefas de luto que têm de ser concretizadas para que se restabeleça o equilíbrio e para o processo de luto ficar completo. Desta forma, a adaptação à perda, de acordo com Worden, envolve 4 tarefas básicas necessárias ao processo de luto: aceitar a realidade da perda; trabalhar a dor advinda da perda; ajustar a um ambiente em que o falecido está ausente ; transferir emocionalmente o falecido e prosseguir com a vida.

É crucial separar o que é um processo normal de luto do que é o luto patológico. Importa compreender que nem todos vivenciam o sofrimento da mesma forma. Sentimentos positivos, o encontrar um significado, força ou crescimento perante a morte de um ente querido, pode também ocorrer.

Cabe ao Médico de Família, estar atento às diferentes respostas face à perda. O clínico deve tentar compreender quais os diferentes contextos em que doente se insere, relação com o familiar/amigo e qual o suporte emocional que o doente dispõe, identificando situações de luto patológico. Importa também desenvolver uma abordagem centrada na pessoa, orientada para o indivíduo e a sua família.

Em Portugal, no ano de 2019, foi emitida uma Norma da Direção Geral de Saúde acerca do Modelo de Intervenção Diferenciada no Luto Prolongado em Adultos, que pode contribuir para uma melhor orientação dos casos mais graves, com o auxílio de uma checklist de fatores de risco de perturbação de luto prolongado, instrumento que  permite avaliar a situação de luto nas seguintes dimensão pessoal, interpessoal e circunstancial.

Concluindo, o Médico de Família encontra-se numa posição privilegiada para fazer o acompanhamento longitudinal do doente e intervir de acordo com as necessidades, de forma a melhorar o seu prognóstico.

O Novo Livro Azul tem um passado e um futuro a defender e a promover num novo ciclo
Editorial | Jornal Médico
O Novo Livro Azul tem um passado e um futuro a defender e a promover num novo ciclo

O Novo Livro Azul da APMGF é um desejo e uma necessidade. Volvidos 30 anos é fácil constatar que todos os princípios e valores defendidos no Livro Azul se mantêm incrivelmente atuais, apesar da pertinência do rejuvenescimento que a passagem dos anos aconselha. É necessário pensar, idealizar e projetar a visão sobre os novos centros de saúde, tendo em conta a realidade atual e as exigências e necessidades sentidas no futuro que é já hoje. Estamos a iniciar um novo ciclo!

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