Desculpem, mas eu li! Na carteira e nos cuidados
DATA
24/02/2020 11:36:26
AUTOR
Rui Cernadas
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Desculpem, mas eu li! Na carteira e nos cuidados

Li primeiro e ouvi depois que algumas das publicações mais prestigiadas na área económica, como o Economist, citaram Portugal como um dos cinco países com maior percentagem de pessoas com idade acima dos 65 anos. Qualquer coisa como um em cinco.

Este número é extraordinário para um país como Portugal e confirma que, pese embora todos os problemas do Serviço Nacional de Saúde (SNS), até agora foi possível suportar um nível de qualidade assistencial apreciável face aos constrangimentos e desvarios financeiros nacionais.

O aumento da esperança média de vida tem sido notável para toda a Humanidade e na Europa, indo já longe os 50 anos do início do século XX… Este progresso e estes ganhos não dependem, na realidade, exclusivamente dos cuidados médicos e de tudo quanto gira em torno deles. As condições de habitação, saneamento, redes eléctrica, de água canalizada potável e tratada, recolhas de resíduos, comunicações de todo o tipo e natureza, o emprego e o nível médio de distribuição de riqueza, por exemplo, foram factores decisivos que explicam e justificam a multidisciplinaridade que conduziram e conduzem a resultados como a saúde de um povo e de um país, ou a esperança média de vida.

Mas, ao mesmo tempo, os sinais e ameaças que recaem sobre os portugueses não deixam de ser muito preocupantes. A pressão sobre o SNS é tremenda e imparável, acabando por a curto prazo “engolir” ou “fagocitar” o próprio SNS.

Os casos de erro médico, de atrasos dramáticos em todos os tempos e listas de espera (cirúrgicas e não cirúrgicas), o envelhecimento e pressões sobre a segurança social, o aumento das comorbilidades e a cronificação de patologias cujo prognóstico foi substancialmente modificado, a falta de investimento público nas estruturas e equipamentos, os custos da tecnologia e dos tratamentos farmacológicos e da inovação – na maioria das vezes em add-on e não em vez de – acabam por ser dimensões ameaçadoras.

Bem sei que sempre que falamos sobre a sustentabilidade financeira se discutem, também, questões conceptuais e organizativas, princípios e políticas… Mas há que falar e, principalmente, discutir. Desde logo, porque inevitavelmente os recursos são finitos e as necessidades sempre infinitas e insondáveis. Os temas da acessibilidade e da proximidade são, à cabeça, pontos de custos acrescidos e permanentes. Depois, a renovação da rede pública de centros de saúde e de hospitais obriga a grandes investimentos, a menos que se queiram manter em funcionamento por séculos…

O consumo de serviços sem controlo e sem esperança, como os serviços de urgência, são outro “cano roto” da despesa, num contexto em que, sobretudo em centros mais urbanos, alimentam um ramal de descarga de dependentes e idosos isolados. Tudo isto num cenário da prática médica cada vez mais cara e porventura menos humanizada.

Tenho para mim que a Medicina, no seu conceito mais abrangente, se transformou já num mercado e, de certa forma, numa competição. Mas essa é a parte da qual os cidadãos certamente ainda não se aperceberam.

As questões do século XXI, como as demências e as doenças degenerativas, as curvas das doenças oncológicas e a sua crescente sobrevivência, os avanços genéticos e as biotecnologias, as obesidades e a diabetes, a insuficiência cardíaca vão rebentar com os orçamentos públicos.

E isso sim… Isso os cidadãos irão sentir.

E sentirão muito e bem, infelizmente nas carteiras e no nível de cuidados de saúde.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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