Desculpem, mas eu li! Sinais de alarme
DATA
19/03/2020 10:46:23
AUTOR
Rui Cernadas
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Desculpem, mas eu li! Sinais de alarme

Os cuidados de saúde primários (CSP) começam 2020 sob sinais perturbadores da continuidade da falta de investimento e de atenção política.

Conhecemos a enorme disparidade entre o que se gasta com a rede de centros de saúde – e unidades de saúde familiar (USF) – e o que é canalizado para os hospitais.

Ainda assim, os resultados que foram divulgados em relação a 2018 – antes, portanto, do tremendo impacto das greves de enfermagem e blocos em 2019 – revelaram-se brutais. Duplicou o número de doentes enviados para cirurgias no setor privado e social e os vales para cirurgia e notas de transferência aumentaram para o dobro (96%). Mesmo assim, o tempo médio de espera por uma cirurgia programada subiu para um patamar nunca antes atingido!

Aliás, a atividade cirúrgica dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) – para não confundir com o Sistema Nacional de Saúde – caiu igualmente em 2018 face a 2017, apesar de 11% dos doentes operados o terem sido em hospitais protocolados e convencionados.

Se no plano dos resultados a linha de desgraça não se inverte, no plano de outros indicadores de despesa, as coisas são ainda piores: o Ministério da Saúde fala de contratações às centenas e milhares (e na verdade os encargos salariais cresceram quase 6% em relação a 2017), mas o aumento do número de horas extraordinárias não cessa de crescer e a despesa com contratações e prestações de serviços e tarefeiros bate recordes.

A despesa geral com tarefeiros subiu de mais de 98 milhões em 2017 para mais de 105 milhões de euros em 2018, sobretudo à custa de trabalho realizado em serviços de urgência hospitalares.

Não sendo de intrigas, contudo, chama-me a atenção o facto de tais encargos serem predominantemente nos sítios do costume, incluindo a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo…

O nosso bastonário tem chamado a atenção para que, estes problemas, apenas denotam a falta real de recursos humanos, designadamente de médicos, tendo calculado o gasto em horas extraordinárias e prestação de serviços, como correspondente à falta de cinco mil médicos!

Na enfermagem o problema será certamente bem maior.

Tudo isto vale por dizer que os CSP vão continuar à míngua, sem uma estratégia clara que promova a prevenção e agilize a continuidade e integração de cuidados do processo assistencial, principalmente em função de dois factos: o do envelhecimento populacional e o do crescendo epidemiológico das doenças crónicas.

O plano organizacional dos serviços precisa de gente que saiba pensar, decidir e fazer funcionar.

O envolvimento patológico da burocratização dos CSP e das USF, em particular, é uma aberração, criando entraves à acessibilidade e fazendo com que se volte a ouvir diariamente queixas de quem nem consegue obter uma marcação de consulta no seu médico de família!

Os quadros de doença aguda não obtêm resposta de proximidade e são empurrados para os serviços de urgência hospitalar.

Os documentos de comprovação organizativa interna nas USF, as atas e outros quejandos dispersam os profissionais, para além da tal dimensão já apercebida externamente, da chamada “preocupação em trabalhar para os indicadores” e que, traduz, uma morte anunciada do modelo atual dos CSP.

A mediocridade na satisfação do silêncio de profissionais e doentes ou a acomodação à estupidez e delírio não são aceitáveis, nem inteligentes.

Urge entender os sinais de alarme.

Como em toda a Medicina e sempre, a atenção aos sinais e sintomas e um diagnóstico precoce são essenciais para a salvação do doente!

Isolamento social com apoio de proximidade e em segurança
Editorial | Jornal Médico
Isolamento social com apoio de proximidade e em segurança

O futuro tem hoje 5 dias! Inacreditável! Quem é que tem agenda para mais de 5 dias? A pandemia COVID-19 alterou profundamente a vida quotidiana, a prestação de cuidados de saúde e a organização dos serviços de saúde está totalmente alterada. O isolamento social é a orientação primordial de confrontação da pandemia. Mas é necessário promover o apoio de proximidade essencial e aprender a fazê-lo em segurança.

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