Questionários de avaliação médica nos cuidados de saúde primários

Na prática médica do dia a dia existe um vasto leque de questionários de avaliação no contexto de diferentes áreas da Medicina, avaliando os mais diversos parâmetros como antecedentes patológicos, sintomas e qualidade de vida, para efeitos de diagnóstico, monitorização terapêutica, estadiamento de doença, motivação, risco, entre outros...

Surge ainda, com relativa frequência, nova evidência científica com consequente adaptação de normas de orientação clínica e de novos programas informáticos, alguns dos quais contendo questionários que implicam mais procedimentos padronizados em consulta.

O Sistema Informático SClínico – Cuidados de Saúde Primários, utilizado a nível nacional, contem ele mesmo um grande número de instrumentos de avaliação associados à ficha individual e familiar do utente, bem como associados a programas de saúde (de grupos vulneráveis ou de doentes com necessidades especificas). Embora exista uma enorme utilidade na sua utilização, sendo um auxílio importante na abordagem do doente, torna-se crucial a otimização da sua aplicação.

Uma das limitações da utilização de questionários de avaliação médica é o facto de, mesmo que traduzidos para a língua portuguesa, por vezes, não se encontrarem validados. A validação de um questionário é um processo complexo, que para além da sua tradução, poderá exigir a reformulação do seu conteúdo, adaptando-o assim ao contexto nacional. Além da tradução, será necessária a avaliação da sua validade e reprodutibilidade num teste-piloto aplicado na população-alvo. Não são raras as situações em que este processo não é levado a cabo, o que invalida as conclusões que poderiam ser retiradas.

É importante que o médico de família esteja familiarizado e domine o instrumento de avaliação utilizado, para efeitos de gestão de tempo, sendo esta uma questão objetiva. Por outro lado, é subjetivo definir de que forma pode ser contraposto o tempo gasto na sua aplicação em relação ao tempo necessário para abordagem dos restantes problemas do doente em consulta.

Outras limitações do uso de questionários prendem-se com a escolaridade e literacia dos utentes, o que dificulta a seleção daqueles que realmente têm benefício. Cabe ao médico de família uma abordagem holística e longitudinal do utente nas diversas etapas da vida, consciente de que a dificuldade de aplicação de instrumentos de avaliação assume uma maior importância nos extremos da idade. Na criança, pela imaturidade, com consequente dificuldade de compreensão sobre o objetivo da avaliação e resistência à colaboração. No idoso, pela possível limitação sensitiva, funcional ou cognitiva.

A experiência médica cumulativa é, sem dúvida, a chave quando chega a hora de determinar o benefício da utilização de determinado instrumento de avaliação, uma vez que permite uma maior rapidez na sua aplicação e um menor número de erros dependentes do utilizador.

Em suma, a utilização de questionários clínicos de avaliação pode proporcionar um auxílio na consulta de Medicina Geral e Familiar pela possível otimização da gestão de tempo (para além do propósito específico da própria ferramenta utilizada). Contudo, o clínico é responsável pela sua seleção criteriosa, de forma a aplicá-lo apenas em situações adequadas.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
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Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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