O QUE EU NUNCA GOSTARIA DE TER ESCRITO… In memoriam ao José Ogando
DATA
30/03/2020 10:27:22
AUTOR
Rui Cernadas
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O QUE EU NUNCA GOSTARIA DE TER ESCRITO… In memoriam ao José Ogando

Vivemos por um período infelizmente demasiado longo para todos e dramático desde que o novo vírus se tornou conhecido.

Alguém me perguntava porque haveríamos de dar opiniões?

Afinal, no dia seguinte poderíamos ter outras, porventura ainda que não contraditórias, bem diversas…

Pensei então no célebre físico britânico Stephen Hawking e na sua crença em que a Humanidade corre o risco firme de ter de enfrentar uma série de perigos criada por si mesma. E a esse respeito, a sua ideia de que a ciência e a tecnologia criaram “novas formas de as coisas darem errado“. E numa série de conferências em 2016 na BBC, referiu como exemplos uma guerra nuclear, o aquecimento global ou vírus criados por engenharia genética como “possíveis arautos da desgraça criados por nós mesmos”.

Longe de mim acreditar na teoria da conspiração que muitos apregoam ou apregoaram ou ainda mais longe de crer no que grasnam “grandes líderes” como Bolsonaro, Trump ou Boris Johnson…

Mas em simultâneo lembrei-me da nova Lei n.º 95/2019, a Lei de Bases da Saúde, tão apressadamente discutida e aprovada o ano passado, como se não houvesse amanhã…

Na Base 6 (Responsabilidade do Estado) assume “a responsabilidade do Estado pela realização do direito à proteção da saúde”, o qual se efectiva “primeiramente através do SNS e de outros serviços públicos, podendo, de forma supletiva e temporária, ser celebrados acordos com entidades privadas e do setor social, bem como com profissionais em regime de trabalho independente, em caso de necessidade fundamentada.”

E na Base 10 (Saúde pública), determinando que, “compete ao Estado acompanhar a evolução do estado de saúde da população, do bem-estar das pessoas e da comunidade, através do desenvolvimento e da implementação de instrumentos de observação em saúde.” Parecia premonitória a definição da prioridade aos “problemas de saúde com maior impacto na morbilidade e na mortalidade, os desafios sociodemográficos e a existência de determinantes não modificáveis, bem como sociais, económicos, comerciais, ambientais, de estilo de vida e de acesso aos serviços.”

O novo vírus vem testar ou revolucionar a nossa forma de viver, de pensar e de organizar em 360 graus todo o modelo civilizacional?

Ficaram para trás os histerismos das urgências pediátricas encerradas em novembro de 2019 e de tantas outras estruturas de saúde que, o mundo que tanto delas precisava compreendeu que é tudo uma questão de prioridades, ou como diria Stephen Hawking de sobrevivência!

Fecham agora urgências gerais ou centros de saúde, tiveram que se esquecer as listas intermináveis para cirurgias e urgências, pararam os rastreios e as rotinas preventivas ou outras, prejudicadas pela época, pela ignorância, pelo medo, pelo contágio de profissionais indefesos e cidadãos não informados, mal preparados ou irresponsáveis que continuaram viagens, férias e negócios como se não houvesse amanhã…

Podendo, de facto e em muitos casos conseguir ganhar esse direito a não ter um amanhã!

E o outro tema que fazia manchetes e arrastava discussões profundas e ruidosas, sobre a eutanásia entretanto aprovada por deputados que não são o povo, caiu com estrondo, estrondo tal que os números e a onda avassaladora das infecções e das mortes pelo novo vírus abafaram e reduziram a pó ou a lixo.

Iremos compreender e sentir pelas piores razões se havia alguma necessidade e suficiente maturidade para fazer essa discussão e sofrer pela injustiça que é sempre lutar muito pela vida, antes de o fazermos pela morte, uma morte que vai ser mais anónima e solitária e estranha.

Pode ser que um maior contacto com doentes em fim de vida e a sofrer e morrer em isolamento total, com a sentença mais trágica – a da impossibilidade de um afecto, de um carinho ou de um gesto de proximidade e aconchego final, faça perceber ao mundo e aos políticos como tudo se relativiza e perde ou ganha importância em função do contexto e das circunstâncias.

Agora só falta mesmo alguém dizer que vem aí o diabo.

E convenhamos que já não poderá ser o mesmo que o previu ou anunciou no passado.

Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade

Assaltar o desnecessário. Rasgar a burocracia. Rejeitar o desperdício. Anular a perda de tempo. As aprendizagens da pandemia serão uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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