Somos todos Saúde Pública!
DATA
08/04/2020 14:40:18
AUTOR
Rui Portugal
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Somos todos Saúde Pública!

Todos pegaram nos livros de Saúde Pública esquecidos dos tempos de Faculdade, todos pesquisaram nos mais comuns meios online usando palavas como Saúde Pública ou Public Health nos tempos mais recentes…

Todos os dias temos a presença de inúmeros profissionais de saúde, comentadores de todas as áreas a discernir e a opinar sobre Saúde Pública. São tempos favoráveis à Saúde Pública, quase limitada à Proteção da Saúde, pelas razões que todos sentimos e vivemos neste final de mês de março de 2020.

Num futuro próximo, teremos certamente mais vocações para esta área e todos agendarão leituras regulares de textos consagrados à Saúde Pública, tanto os leigos, como os profissionais. Uma maravilha! Lá em casa penso que pela primeira vez sabem, mais ou menos, um dos objetos da especialidade do pai e marido! Se sobreviver, isso será um dos ganhos da atual pandemia! Os nossos internos poderão explicar em suas casas e perante os seus colegas porque abraçaram esta especialidade a que tanto se dedicam. Todos os serviços requerem especialistas de Saúde Pública, que já deveriam estar nos serviços hospitalares e conselheiros nas áreas da Defesa, Administração Interna, Segurança Social, Educação, Economia, entre outros.

Claro que haverá múltiplas leituras sobre o que é Saúde Pública e como se operacionaliza. Claro que haverá interpretações erróneas sobre o que é Saúde Pública, em particular as que serão dirigidas possivelmente à Medicina e à cura.

Mas, nestes tempos de fartura em Saúde Publica – e de certa forma de uma correria à Saúde Pública – é bem possível que tomemos decisões precipitadas, possivelmente com modelos tradicionais inadequados às ameaças e desafios do presente. O mundo mudou e os métodos ainda não acompanharam as novas realidades em que vivemos. Os valores económico e de bem-estar têm, hoje, uma preponderância para os países e para as pessoas diferente dos combates a epidemias/pandemias anteriores, as expetativas de vida e bem-estar são diferentes, os movimentos de pessoas e bens são incomparavelmente superiores, a exposição sobre a desigualdade é notória.

Sabemos muito pouco sobre a história natural da doença provocada pelo SARS-CoV-2 e tateamos na escolha de implementação de medidas para o combate ao vírus em sucessivas vozes, em que quando se ouve um “mata” logo a seguir se ouve um “esfola”. As vozes e os discursos denotam, natural e expetavelmente, insegurança sobre o que sabemos e muitas incertezas face ao futuro.

A produção científica sobre a epidemia é absolutamente impressionante e por isso a evidência, mesmo que parca, é abundante. Mas, cada um lê e divulga as matérias do seu saber, do seu interesse e tende a não ter leituras mais abrangentes. As mensagens são múltiplas e muitas vezes contraditórias.

Há predomínio da Medicina na formulação das escolhas e um enorme défice do saber das Ciências Sociais, das Ciências da Comunicação, da Sociologia, da Psicologia, da Ética, da Defesa, para não falar da tão badalada Economia. Uma verdadeira Saúde Pública é tudo isso.  Alinhamos o pensamento, as práticas e a comunicação numa perspetiva em saúde e sobretudo médica. Os medos instalaram-se com enormes consequências no nosso futuro em saúde e em bem-estar. A Medicina e a Saúde Pública vão sair vitoriosas, mas o mesmo não sei sobre as Nações e os Povos. Honras e glórias virão para os profissionais de saúde, merecidamente, mas não para os que foram contra a corrente e que só em meia dúzia de anos serão reconhecidos, mas já tarde.

Será que o que estamos a ganhar hoje iremos perder redondamente num médio e longo prazo, em termos de prevenção de doença e promoção da saúde, por exemplo? Será que vamos aumentar desigualdades? Será que vamos perder autonomia como nação de novo? Será que vamos perder direitos? Será que abrimos portas a populismos e discursos demasiado fáceis? Será que perderemos os nossos valores como civilização por não termos outro tipo de soluções? São interrogações incómodas a que, na volúpia do momento, não estamos atentos. Será que temos tempo ou queremos ouvir o que outros têm para dizer? Estamos atentos aos gráficos, aos números, às equações e pouco atentos ao que somos como Humanidade, ao que podemos fazer hoje para o dia depois de amanhã e não sobre o dia de hoje ou o dia de amanhã. Lembro aqui as palavras da exortação apostólica Gaudete et Exsultate (2018) pelo Papa Francisco sobre o Gnosticismo e o Plagianismo, mas aplicados à Medicina e à Saúde Pública.

Para concluir, transcrevo as palavras de Ricardo Jorge do seu relatório A Peste bubónica no Porto – 1899: Seu descobrimento: Primeiros trabalhos pelo Médico Municipal: “Esta intrusão, no canto da Europa ocidental, d’un flagelo que há tresentos anos nos deizara em paz, é um fenómeno de magnitude, qualquer que seja o lado por que se encare; ou medicamente, como moléstia nova, embora resuscitada, que cumpre perscrutar com os recursos da analyse pathologica moderna; ou sanitariamente, como doença popular, tanto a seguir nas suas causas e evolução, como a combater  e prevenir com as armas da hygiene moderna; ou socialmente, como praga difusiva que bem perturbar a vida physica, moral económica d’um povo inteiro.”

Gostaria que o relato que será escrito da atual pandemia tenha mais conteúdo do que a que escreveu no seu tempo o arquiteto da estrutura de combate a epidemias em Portugal desde 1899, e que ao dia de hoje é totalmente válida para o que ocorre.

Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade

Assaltar o desnecessário. Rasgar a burocracia. Rejeitar o desperdício. Anular a perda de tempo. As aprendizagens da pandemia serão uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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