Novas formas de fumar. Um velho problema.
DATA
08/04/2020 14:44:12
AUTOR
Tiago Castro da Cunha
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Novas formas de fumar. Um velho problema.

Quando os europeus chegaram à América pela primeira vez, já o tabaco era consumido por nativos locais há mais de dois mil anos.

Com a sua introdução na Europa, rapidamente se disseminou como produto de culto, sendo inclusivamente usado para fins medicinais. Só no início do século XX se começou a questionar os seus reais efeitos sobre a saúde, tendo sido necessário cerca de um século para que fossem implementadas leis e tomadas medidas antitabaco consistentes.

Os primeiros cigarros eletrónicos surgiram em 2003, mas só mais de uma década depois é que começam efetivamente a ganhar maior protagonismo, impulsionados pelo fortalecimento das medidas antitabaco e uma popularização das tecnologias de bolso. Tratavam-se inicialmente de dispositivos que vaporizavam líquidos contendo, entre outros, uma mistura água, glicerol e nicotina, num formato descartável que pretendia imitar o cigarro convencional. Desde então estes dispositivos foram evoluindo, existindo hoje uma vasta gama de dispositivos que podem ser relativamente simples até máquinas complexas, habitualmente não descartáveis, constituídos por um reservatório de líquido, peça de aquecimento (atomizador), bateria e bucal. Mais recentemente surgiram dispositivos que permitem aquecer o tabaco, evitando desta forma o processo de combustão no qual se produzem muitas das substâncias nocivas do tabaco, traduzindo-se numa forma teoricamente menos prejudicial de fumar.

Apesar de toda publicidade efetuada à menor toxicidade destes dispositivos, ainda não sabemos quais serão as suas implicações na saúde a longo prazo. Existem já vários estudos de toxicologia, uns apontando para uma menor concentração de substância em número e quantidade, outros a mostrarem estar presentes substâncias em concentrações muito superiores ao verificado no tabaco convencional. No que toca a estudos clínicos, existem poucos e com seguimento de curto prazo, pelo que serão precisos vários anos até ser possível tirar conclusões com alto grau de confiança.

No fundo, estamos para os cigarros eletrónicos como estávamos no início do século XX para os cigarros convencionais. Esta ideia é reforçada pelo surgimento em 2019 de casos duma nova entidade clínica designada “e-cigarette, or vaping, product use-associated lung injury (EVALI)”, que cursa com sintomas semelhantes a um quadro gripal, contando já com cerca de 2.600 pessoas afetadas e 60 mortes, até janeiro de 2020. Interessa referir que cerca de 80% dos casos registados se associam ao uso de líquidos contendo óleos de canabinóides e o facto de haver relação aparente com a presença de acetato de vitamina E como aditivo. No entanto, em 14% dos casos não existe essa ligação.

No panorama atual, dada a escassez de evidência, o curto tempo de exposição a estes produtos e os recentes casos de lesão pulmonar associados ao seu consumo, impõe-se redobrada cautela nas recomendações para uso destes dispositivos. É importante implementar medidas que visem alertar para os riscos potenciais do seu uso, particularmente nas camadas jovens, pois sabe-se que é abaixo dos 20 anos onde a maior percentagem de fumadores iniciam o consumo – esta é uma população com especial apetência pela novidade e estes novos dispositivos apresentam-se esteticamente apelativos, com sabores aprazíveis e sem os odores do tabaco convencional.

Para além dos problemas já descritos a falta de regulamentação legal destes produtos faz com que o controlo de qualidade dos mesmos seja escasso ou inexistente, nomeadamente em relação ao conteúdo dos inalantes, sua composição e proveniência. Desta forma, é urgente que as entidades competentes regulamentem este mercado no sentido de proteger o consumidor e alertar para os riscos do consumo destes produtos. Tal pode ser conseguido através de um maior controlo de qualidade, bem como pelo fornecimento de informações sobre os riscos potenciais da utilização destes dispositivos.

Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade

Assaltar o desnecessário. Rasgar a burocracia. Rejeitar o desperdício. Anular a perda de tempo. As aprendizagens da pandemia serão uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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