Controvérsias e gestão do tratamento do cancro durante a disseminação da doença por Covid-19: perspetiva de um jovem oncologista

Desde há uns meses que tudo mudou. Num abrir e fechar de olhos tudo parou. Já deveria ter feito o exame de fim de especialidade, consagrar-me especialista e estar neste momento a decidir o meu futuro, mas tudo isto foi adiado, como tantas outras coisas. Vi-me forçado a voltar ao trabalho, ao meu antigo trabalho, ao lugar onde fiz o meu internato, novamente como interno.

Sou Médico, e, desde o final do meu Internato formação específica que trabalho preferencialmente na Clínica Oncológica de Tumores Urológicos e Gastrointestinais do Serviço de Oncologia Médica do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central. Este Centro inclui um dos maiores serviços europeus para o tratamento do cancro hepato-bilio- pancreático, contando com recursos excecionais.

O Mundo enfrenta um novo desafio, uma pandemia, um surto de um novo beta-coronavírus. A OMS declarou a nova doença de coronavírus (Covid-19), causada pela SARS-CoV-2, uma emergência de saúde pública internacional.

A morbimortalidade da Covid-19 tem sido associada a fatores como a idade e comorbilidades. A infeção nos doentes frágeis assume um pior prognóstico, resultando mais vezes em hospitalização, internamento em unidades de cuidados intensivos (UCI) com consequente necessidade de ventilação mecânica invasiva. Entre estes, os doentes oncológicos representam um grande subgrupo com alto risco de desenvolver infeção associado a coronavírus e, consequentemente, complicações graves.

Para limitar a disseminação viral, o Governo Português implementou medidas extraordinárias que culminaram num bloqueio que inibe - a menos que seja estritamente necessário - os movimentos e atividades sociais das pessoas em todo o território nacional. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) de Portugal está atualmente sob pressão e notáveis esforços são feitos para fornecer uma resposta eficaz ao estado de emergência.

No entanto, permitir que Profissionais de Saúde não testados cuidem de doentes pode ser uma faca de dois gumes. As infeções assintomáticas, não documentadas, são uma das principais formas de transmissão e disseminação do vírus. Além disso, a escassez de equipamentos de proteção individual (EPI) parece ser generalizada nos Serviços de Saúde, e incluem Cuidados de Saúde Primários e Serviços Hospitalares em outro contexto que não UCI, também estes na linha da frente ao combate a esta epidemia!

Doentes com cancro são mais suscetíveis a infeções em comparação com indivíduos saudáveis devido à imunossupressão sistémica secundária aos tratamentos dirigidos. Portanto, a emergência atual é particularmente preocupante para médicos oncologistas e para os seus doentes.

A questão de como organizar o tratamento destes doentes durante a pandemia de Covid-19 é crucial.

Oncologistas de norte a sul do país, todos estamos a implementar recomendações da nossa Sociedade Portuguesa de Oncologia bem como da Sociedade Europeia, tentando manter os cuidados essências aos nossos doentes numa atmosfera o mais segura possível quer para estes, quer para os profissionais de saúde. Para isso contamos com uma série de alterações ao nosso dia-a-dia enquanto clínicos, que incluem triagem rápida do quadro clínico à entrada do hospital; encaminhando quadros suspeitos a áreas dedicadas a Covid-19, devidamente preparadas para a sua abordagem, e procurando manter áreas “limpas” e seguras para os doentes e profissionais não infetados; promover uso de máscaras cirúrgicas e lavagem das mãos com gel hidro-alcoólico, fornecidos a todos os doentes na entrada.

Vivendo na era da tecnologia e das redes sociais, cabe-nos a nós, jovens oncologistas, nesta pandemia, promover a implementação da telemedicina e consulta não presencial sempre que possível. Esforços consistentes devem ser feitos na monitorização de doentes em ambulatório com contatos regulares por telefone ou e-mail. Embora a "telessaúde" não possa ser a única estratégia futura da medicina, considerando a relevância da interação médico-doente, que é de especial relevância no campo da Oncologia, a atual crise do Sistema de Saúde exige o uso da comunicação eletrónica como uma ferramenta válida para otimizar o atendimento (por exemplo, gestão de consultas de follow-up, terapêutica oral, etc.) em circunstâncias tão difíceis.

É incontestável reunir esforços para combater a pandemia por SARS-CoV-2, mas não deixemos assentir que o vírus contamine o SNS. Os desafios são imensos, mas há vidas para salvar, muito mais para além da Covid-19. Quero com isto dizer que a pandemia provocada pela Covid-19 não fez desaparecer as doenças destes doentes, que continuam a precisar da nossa atenção e cuidados. Estas mortes, que também serão mortes consequentes da Covid-19, porque resultam da inacessibilidade destes doentes aos melhores tratamentos possíveis, não entram na contabilização da mortalidade em Portugal. E por isso, estamos longe de saber qual o verdadeiro impacto da Covid-19 no nosso país.

Se por um lado é mais do que claro que devemos de ter noção de que com a atual situação de pandemia é impossível conseguir manter toda a normal atividade e concomitantemente tratar os doentes Covid-19 no SNS; por outro lado, não podemos ignorar as restantes doenças além deste vírus, uma vez que tal cenário pode levar a um aumento muito expressivo da mortalidade dos doentes oncológicos em Portugal.

 

Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade

Assaltar o desnecessário. Rasgar a burocracia. Rejeitar o desperdício. Anular a perda de tempo. As aprendizagens da pandemia serão uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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